Eu estava preparado para a primeira reunião de condomínio do meu novo prédio: colete à prova de balas, capacete, soco inglês e duas cartelas de Rivotril. A pauta era explosiva: duas cotas extras, uma, para colocar uma grade acima do muro, outra, para trocar a tubulação de gás. Afinal, um ladrão entrou no prédio recentemente e o gás estava escapando.

Às nove da noite, a assembléia começou alvoroçada. “Socorro!”, gritou a velhinha do quarto andar. “Entraram na minha casa!” “O prédio vai explodir”, alertou o subsíndico, “Chamem o delegado Padilha!”, implorou a vizinha da cobertura. A essa altura, o presidente dos trabalhos bateu na mesa e disse que aquilo não era uma zona. Quem quisesse falar, devia se inscrever. 

Tomei coragem e pedi para falar. “Poxa, Dona Síndica, que cota extra salgada! Vocês querem que eu me mude? Se não for por medo de ladrão, será pelo valor do condomínio!” Ao que me respondeu um vizinho com ares de abastado: “este é o preço de morar num prédio como este na Gávea, meu caro”. “Caro, não, vizinho! Caríssimo!!!”, redargüi.  

Pois é… Gente bacana, essa! Metem a mão no meu bolso, e me ensinam que é assim mesmo. Saudade do prédio antigo… Mas, como disse o meu caríssimo vizinho, é o preço de morar num prédio como aquele. “E aí, Luiz Henrique Arruda, tem uma quitinete livre ao lado da sua?” Estou frito!