O confinamento imposto pela pandemia da Covid me fez “escrever para fora”. Um meio que encontrei para atenuar a ansiedade naqueles tempos tão tristes. Deu certo; passei a ter um prazer semanal com as crônicas. Por outro lado, neurótico por natureza, ocasionalmente a tela em branco me aflige – é quando ouço meu grilo, que podia ser falante sem gritar: “Frescura, Mauro, abre logo o jornal. Não falta assunto!”

E lá estavam as manchetes: “Homem laranja quer muro mais alto na fronteira com o México”, “Taxa de juros sobe”, blá, blá, blá, “Governo vai despoluir a Baía de Guanabara” (de novo!!!) e “Prefeitura usa cellbroadcast pela primeira vez.” Ora, o que é isto? Cellbroadcast?! Explico. Quinta-feira passada, no final da tarde, os telefones celulares tremeram na cidade toda. Terremoto? Não. As Alexas também surtaram na mesma hora. “Pai, do nada, a Alexa tocou o alarme e começou a falar. Cuscuz não parou de latir”, disse minha filha. 

Seriam alienígenas? Nada disso. A Prefeitura do Rio alertava sobre uma provável tempestade, utilizando o aplicativo cellbroadcast, uma espécie de telemarketing que alcança milhões de telefones celulares ao mesmo tempo. O propósito é invadir a privacidade do cidadão, digo, é alertar os cariocas sobre uma tragédia iminente. Não reclamemos. Benditos sejam os alarmes falsos! No caso, a borrasca mudou de direção e foi infernizar a vida de outra cidade. 

É a tal história, seguro morreu de velho. Mas velho também morre de susto. Além do quê é preciso respeitar quem não deseja ouvir alarmes. Há quem prefira ficar sentado, lendo, assistindo a um filme ou ouvindo a orquestra tocar enquanto o navio afunda. Digo mais! Daqui a pouco, geringonça similar poderá ser mais invasiva e alertar sobre fatos ainda mais sensíveis. Nem todo mundo quer saber, por exemplo, se o Grande Ricardo esteve na sua casa em sua ausência. Maldição de George Orwell? Big Brother em ação? 

Portanto, é muito difícil não ter algum tipo de transtorno de ansiedade. É muita interferência, é muito suspense… E da próxima vez que o telefone tocar e vibrar? Será o cellbroadcast da Prefeitura? Lembro-me do filme Disque M para Matar (1954), do mestre Hitch, com a linda Grace Kelly. Atender ou não atender à chamada? É de roer as unhas! Mas boas notícias também existem. Quem sabe será um convite para jantar. De Grace, de Sean? Não exagere!