
Tomo emprestado de Fernando Sabino o título de seu célebre conto “O Homem Nu”, dando-lhe, porém, um toque contemporâneo: “Homem Nude”. A ideia é, através desta crônica, desculpar-me com meus novos amigos do Instagram, caso recebam uma imagem minha de gosto duvidoso. Obviamente, será fake ou terá sido por engano!
Há uma semana, engatinho nesta geringonça nova para mim. Ela possui detalhes demais para neurônios analógicos e Cecília tenta me ensinar: “Fácil! Basta você deslizar o dedo na tela, pai”. “Para esquerda, para direita? Para cima, para baixo?”, indago. Ora, de fácil, não tem nada, e ainda sou alertado que, para ser aceito pelo novo grupo, é preciso reduzir frases, abreviar palavras e, de preferência, encontrar uma imagem que substitua o texto inteiro!
Imediatamente, penso no Homem Nu. Não em um homem nu! Refiro-me ao conto de Fernando Sabino. É delicioso e não dá para abrir mão de uma única linha. Mas há quem ache possível reduzir tudo a uma imagem instantânea, a um flash – o que me faz festejar que não havia Instagram na época do cronista. Teríamos corrido o risco de Sabino ter publicado a foto de um homem nu dentro de um elevador ou a esmurrar a porta de casa.
De todo modo, lancei-me. Não sei até quando… Sei que todo cuidado é pouco quando se trata de Internet, mas ocorreu-me que na varanda de casa há uma família de passarinhos que é uma graça. Eles adoram bicar um espelho, talvez, por imaginarem que estão dando beijinhos em outros passarinhos. Eu estava saindo do banho quando ouvi os pios e as bicadas da passarada. Com certeza, a imagem faria sucesso no Instagram, pensei. Corri enrolado na toalha até a varanda e flash, flash, flash!
Mas não é que a toalha caiu, a vizinha gritou e por pouco não compartilhei a imagem que o espelho refletiu? Imagine a tragédia! Imagine o constrangimento! É mentira, confesso! Ou uma licença poética… A vizinha não viu nada. Mas juro que meus seguidores (!) por pouco não tiveram a visão de algo que não é propriamente… o Davi de Michelangelo.