
Um dos gatilhos da minha memória são as músicas que escuto a caminho do trabalho, de uma playlist enorme tocada no modo aleatório. É como se fosse uma estação de rádio com todo tipo de gênero musical. A diferença é que gosto de todas, muito ou mais ou menos, e não desgosto de nenhuma.
Sinal fechado. À minha esquerda, estaria o lindo casarão da Embaixada da Argentina. Na realidade, lá está um prédio enorme construído no seu lugar. No lado oposto, no entanto, era ele mesmo, o Pão de Açúcar. Sem tirolesa! Morar no Rio de Janeiro é uma merda, diria Tom Jobim, mas é muito bom. A paisagem da Enseada de Botafogo é um privilégio para quem vive por aqui.
E a música que tocava? Não sabia que estava na lista: “Quizas, quizas, quizas”, cantada por Nat King Cole. “Que coisa brega!”, minha filha fuzilaria. Pode até ser cafoninha mesmo, mas é boa, me fez filosofar sobre decisões que não tomei, pensando, pensando, pensando. Até quando? Até quando? Até quando? Se tivesse feito isso e não aquilo?
Os “talvezes”, os quizas, podem ser fatais. Você vai? Talvez. Você fica? Talvez. Você quer? Talvez. E é assim que o tempo passa… A não ser que uma força interior vença a dúvida ou a solução venha do céu, como aconteceu com Sheldon Millstein e ele não compreendeu. Refiro-me ao personagem de Woody Allen em “Édipo Arrasado”. Sua mãe surgia no céu de Manhattan para orientá-lo e dissipar qualquer dúvida. “Preste atenção, Sheldon. Faça! Não faça! Ela não serve para você! Quizas, coisa nenhuma!”
Pois é… Bordejar, subterfugir, tergiversar são verbos realmente feios. É bom evitá-los e, naquele momento, a vontade de seguir adiante era nenhuma. Daí, olhei de novo para o Pão de Açúcar, lindo, coberto por um céu azul, e juro que vi e ouvi a mãe do Sheldon me dar um psiu: “Está louco, Mauro! Um dia lindo como este e você vai para o trabalho?! Entra no próximo retorno e vá para a praia!”
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