
Aos 95 anos, a agenda da minha sogra ainda é extensa. Seu pequeno apartamento está sempre apinhado. Não apenas com os filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, mas com os amigos de todos, que não resistem em conhecer e a conviver com a Dona Rosarinha. Mas eu sei o que é isso! A peste da minha sogra seduz quem dela se aproxima, e não adianta eu dizer que ela é perigosíssima.
De mansinho, tece suas teias para aprisionar os incautos. Quem entra pela porta do seu apartamento se espanta com a mesa sempre posta. Cheia de feitiços! Como a casa da bruxa de João e Maria: sempre uma cesta de pães frescos, bolinhos de chuva com canela e açúcar, café feitinho na hora, como ela gosta de dizer com sua fala mansa, leite, geleias, queijo de Minas e, não se espante: bolo!
Aliás, D Rosarinha é mineira e, já vou avisando, tem aquele sotaque de quem quer se fazer de boazinha. Conta histórias que encantam a todos, mas eu não caio na esparrela da beleza do pomar da chácara do seu pai nas Alterosas, do cheiro da comidinha de sua mãe no fogão de lenha, das travessuras com os irmãos e do ciúme que tinha da Aparecidinha. Pura falsidade! Aquilo é uma serpente!
Quando se casou, ainda muito nova, em dias de chuvaradas, ia para debaixo da mesa com os filhos, com medo de trovoada. Está na cara que é uma feiticeira! Aquilo devia ser uma espécie de ritual.
Pior! Ela reza todos os dias para Nossa Senhora. E mais de uma vez! Aliás, cá entre nós, é um assédio contra a mãe de Jesus, coitada. Diz que reza para todos, para os pobres, para as crianças, para quem está preso e quem sofre nas guerras, até para a neta não sentir dor na ida ao dentista.
Quando não escapo das suas garras, ela me pede um abraço, pergunta se meu joelho parou de doer e diz que sonha com meus pais, que eles estão felizes. Veja só! Mais esta! E que Cecília está linda e não quer morrer antes de vê-la formada. E pergunta pelos meus irmãos, um por um. Percebe? Aí tem coisa! Ela toma alguma poção para não esquecer ninguém.
Portanto, cuidado! Por trás daquela candura, daquela senhora magrinha e sempre cheirosinha, que usa talco no pescoço e brinco de pérola, que sorri para todo mundo, vive uma sogra terrível! De quebra, é uma leitora voraz. Lê até os meus textos. Quero muito ver seus olhos sorrirem deste de hoje. AMO!!
Que delícia, Mauro!
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