As festas de final de ano pressupõem, para muitos, a troca de presentes, as brincadeiras de amigo secreto ou amigo oculto, que, na casa dos meus pais, chamávamos de “Miguel Couto”, por conta de um empregado para quem o nome do hospital da Zona Sul do Rio fazia muito mais sentido. “Vai ter miguelcouto este ano?”, perguntava o Severino. 

Presentes de aniversário também fazem parte de muitas culturas e, tanto num caso quanto noutro, surgem pelo menos duas questões. O que dar? O que será que vou ganhar? Ambas respostas dependem de fatores diversos e admitem múltiplas análises – o que me leva a buscar exemplos de presentes no passado. 

Guardo com muito carinho um calçador de sapatos que, de quebra, tem uma mãozinha para coçar as costas na extremidade oposta. Ganhei de um amigo querido, que não faz ideia – pelo menos, até agora – de quanto o uso. Não para calçar os sapatos. Ainda não! Tampouco para me coçar. Mas a mãozinha serve para resgatar a bolinha favorita do Cuscuz embaixo dos móveis. Cuscuz não sobreviveria sem este brinquedo dado a ele por outra pessoa que não imagina o quanto seu mimo nos faz felizes. 

Ao passar os olhos à minha volta, identifico outros presentes preciosos na sala cuja decoração nada tem de minimalista, tamanha é a quantidade de lembranças e quadros pendurados nas paredes, dispostos em estantes e em outros cantos. São presentes recebidos ao longo da vida: a Arca de Noé de cerâmica, o perfil do Rio de Janeiro a bico de pena, o Citröen 2CV em miniatura, o quadrinho com o Big Ben, que ganhei há 50 anos, os presépios da Sonize, o sapatinho de Granada, a latinha pintada com as janelas de Tiradentes e livros que não passo adiante – como é meu hábito – por alguma razão. 

Seriam muitas linhas para descrever o que meus olhos alcançam através dos presentes do passado… E também os deixados pelos meus pais. Todos foram transformados em presenças amorosas e constantes ao meu lado. Podem ter custado pouco ou nada, como os gestos que não se materializam, mas têm valor inestimável na nossa memória.

Desejo a todos os meus queridos e queridas, que me honram com a sua convivência, de perto ou de longe, que recebam meus votos de um Natal de paz, com a presença física ou espiritual dos que amam. Saúde, bom humor, esperança no futuro e, lógico, longe do Hospital Miguel Couto!