
Não é uma igreja. Não é um banco. Não é uma farmácia. É uma padaria! Alvíssaras! O bairro acaba de ganhar uma nova padaria. Eu a tinha visto de passagem. Fica perto do ponto de táxi, do jornaleiro e onde já houve outra que virou uma farmácia. Lá, eu costumava pedir um pão na chapa e um café pingado para ler o jornal no balcão.
Muito longe dali, ocorreu-me que havia a padaria do Seu Brito, perto da casa da minha infância. Além de vender pão, mortadela, queijo bola, sorvete e frango assado, Seu Brito descontava cheques para os fregueses antigos e, lógico, vendia fiado para quem precisasse. Ficava entre a quitanda da Dona Trindade e o açougue do Seu Aníbal. Mas, verdade seja dita, nem com o tempero generoso da saudade posso dizer que a bisnaga de lá era boa. Só o pão doce era razoável, e também o pão careca, vendido aos domingos.
Meio século depois, é óbvio que a padaria nova do novo bairro será muito diferente. Não trocará cheque nem venderá fiado. Imagino-a limpíssima, oferecendo novos produtos, em novas embalagens. Papel de pão e barbante? O que é isso? Tudo será muito convidativo para o bico e o paladar de quem possa pagar o preço. Pois, hoje, deixei o saudosismo em casa e lá fui, travestido de contemporâneo.
Como imaginava, é tudo organizado. Pedi um croissant e um macchiato, para consumir ali mesmo enquanto consultasse as mensagens no telefone celular. Mas o meu sonho, aquele recheado com creme amarelo, durou pouco. Não tinha nem uma coisa nem outra. Aliás, sonho, na nova padaria, apenas de Nutela. Ora, não faz sentido! Não é uma padaria. É uma loja que vende pães. Até parecem ser gostosos, mas aquilo não é uma padaria. Não servem nem os cafés de máquina.
Fazer o quê? O jeito vai ser levar um sonho diferente até o botequim sobrevivente, onde poderei pedir um pingado. Mas, seja como for, muito bem-vinda, padaria entre aspas! Eu não suportaria outra loja de remédios.