A linda música Fado Tropical (1973) é um poema cantado. Sobre ela, Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra derramaram muito da sua genialidade e talento. Mas ouvir a versão original pode nos remeter a tempos de extrema crueldade, os anos 1970, no Brasil.

Um dos trechos declamados pelo poeta moçambicano e parceiro de Chico fala do lirismo transmitido pelo sangue lusitano, além do que pateticamente a censura da época cortou : a sífilis. “Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo, além da sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Outra vítima da censura ridícula de um passado não tão distante foi o filme Laranja Mecânica (1972), de Stanley Kubrick, que assisti no cinema Joia, em Copacabana. A cena fortíssima de um estupro foi avacalhada por censores estúpidos e incompetentes. Aquela parte do corpo feminino que não pode ser mostrada por atentar contra a moral e os bons costumes era perseguida por uma bolinha branca implantada na película. O problema é que o truque não era suficientemente ágil para acompanhar o movimento violento dos corpos, transformando em cômico o que era trágico.

Rir? Chorar?

Enfim, até hoje, o balé da bolinha de Laranja Mecânica e a sífilis cortada do Fado Tropical não foram censurados pela minha memória. Duas ações grotescas de um tempo que alguns tentam resgatar, partidários que são da extrema burrice, que desgraçadamente ganha força no Brasil e no mundo. Torço para que desapareçam mais do que depressa! Não sei se o coração perdoa… No mais, é melhor recordarmos outros trechos da música e as imagens de “avencas na caatinga, alecrins no canavial, licores na moringa, um vinho tropical“.