Assisti ao filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com interpretação magistral de Fernanda Torres, e até hoje ele não saiu da minha cabeça. O filme é imenso, no melhor sentido, e não se esgota em uma sessão de cinema. A emoção é muito grande.

Em 1970, em plena ditadura militar, no Rio de Janeiro, havia uma família feliz, adorável, a família de Rubens Paiva, como a de muitos de nós. Nesta época, o Estado torturava, matava e ocultava. Mas continuávamos ali, vivendo nossas vidas, ao lado dos carrascos e do terror. Eu não sabia. Meu pai não foi preso, torturado e morto. Minhas lembranças são felizes. As da família Paiva foram roubadas.

Salto no tempo. Em setembro de 2015, o corpo de Aylan Kurdi, de três anos, foi encontrado numa praia da Turquia – uma imagem que também não sai da minha cabeça. Sua família era de uma cidade curda do norte da Síria e tentava escapar para a Grécia num barco que naufragou. Eu não sou curdo e meus pais não tiveram que abandonar a nossa casa, como os do Aylan, que não podiam estar ali. Eu sabia.

Rio de Janeiro, 2024. Há muita gente feliz, brincando na praia, dançando e jogando bola. Mas no dia 24 de outubro, uma cena triste e quase diária se repetiu: Renato de Oliveira, 48 anos, foi baleado dentro do ônibus. Ia para o trabalho. A polícia trocava tiros com outro tipo de bandido numa rua muito movimentada. A mulher do Renato e seus quatro filhos ficaram destroçados com sua morte. Eu não estava nesse ônibus. Esta violência não me atingiu diretamente, como alcança e mata milhares de pessoas nas comunidades pobres, há muitos anos. Todos sabem.

Não sou palestino, não vivo em Gaza ou na Ucrânia. Não sou russo nem israelense, não fui enviado para matar pessoas que não fizeram nada contra mim, apenas porque as fronteiras existem e precisam ser abismos. Também não sou armênio e minha família não é uma das mais de 30 mil expulsas de Nagorno-Karabakh. Exatamente, como acontece com outros incontáveis seres humanos que têm que sair de onde vivem porque gente armada os ameaça. Sabemos todos e não abandonamos nossos planos de vida.

Ora, que mistério é este de a felicidade prosperar ao lado de tantas tragédias? Uns explicam que é assim mesmo, que somos movidos por pulsões naturais de vida e de morte. Outros, que nossa energia e felicidade provêm de Deus. Por isso a Família Paiva, a do Renato, a do Aylan e milhões de outras sobrevivem e até voltam a sorrir.

Esta é uma questão recorrente que me veio com força depois que assisti ao filme na última segunda-feira. Também éramos cinco filhos, daquela mesma geração. Nossa casa costumava estar sempre cheia. Meu pai também era engenheiro e minha mãe fazia muito suflê…

Veja o filme! Viva o que você não experimentou. Reviva o que nunca deveria ter existido. Viva Eunice Paiva! Viva Rubens e seus filhos. Sou grato pelo que fizeram, revelaram, por reavivarem nossa memória e por ainda estarmos aqui.