
Nada era mais cafona do que as traduções simultâneas das músicas nas rádios. Em geral, baladas românticas traduzidas pelo locutor do programa. Um horror! Mas eu mesmo, confesso, numa festa, depois de alguns copos, protagonizei uma versão brasileira de “Ne me quitte pas”.
A célebre música de Jacques Brel era considerada por um casal de amigos a expressão do seu amor. Depois que me ouviram, nunca mais a levaram a sério – o que me deixou com remorso, já que os dois se separaram poucos anos depois…
Mas o tema de hoje é outro. Peço que não me abandone antes do final da crônica. Quinta-feira passada, no habitual engarrafamento da Rua Voluntários da Pátria, ouvia minha playlist no modo randômico, no modo surpresa. Pavarotti terminou de cantar, Caetano Veloso prosseguiu e depois veio Ella Fitzgerald. Adoro quando a surpresa é Ella! Que voz deliciosa! De Cole Porter, ela cantava Miss Otis.
Poliglota que não sou, eu me deliciava com o refrão “Miss Otis regrets, she’s unable to lunch today, madam”. Isso, sempre compreendi. Por alguma razão, Miss Otis não poderia almoçar. E o resto? Redobrei a atenção e duvidei do que supus ser a razão da sua ausência. O trânsito fluiu, a música acabou e Ney Matogrosso começou a cantar Feitiço da Vila.
Miss Otis não saiu da minha cabeça e, pela primeira vez na vida, lamentei a falta daquele locutor de rádio brega. Cheguei ao trabalho, peguei meu café e abri o computador. Imediatamente, transpus a letra da música para uma ferramenta de tradução.
Uau! Que tragédia! E que fina ironia! Miss Otis não poderia almoçar porque fora linchada depois de matar o homem que amava. O refrão era de um suposto mordomo informando que ela lamentava não poder almoçar porque a multidão a enforcara num salgueiro do outro lado da rua.
Stálin não teria escrito versos mais românticos… Eu que pensava que Miss Otis não almoçaria porque, pelo que a suavidade da voz de Ella sugere, estava deitada, suspirando pela noite de amor da véspera.
Quem sabe o amante teria sido poupado se a tivesse ouvido cantar minha versão de “Ne me quite pas”?! É probabilíssimo que estivessem juntos até hoje. “Não me deixes, pois! Não me deixes, pois!”
Vale a pena ouvir a música pelo link abaixo.