Foto em preto e branco do óleo de Gilberto Baptista

Quando escrevo com acidez, inconformado por algum fato recente, sou aconselhado por minha mulher a mudar de tom e assunto. « Melhor escrever sobre seus avós, tias, amigos; e com esperança! Fará melhor a você e aos amigos que o lêem », ela diz. E é possível que esteja certa. De horrores e de pessimismo, estamos muito bem servidos. Portanto, ao menos hoje, sigamos pelo caminho dos afetos, evitando o atalho da floresta escura.

A casa de minha avó Anna no Alto da Tijuca era mágica. Além dos jambeiros, mangueiras, pés de sapoti e de abiu, além das peladas no campinho do lado, das brincadeiras de queimado e polícia e ladrão, havia as tardes de cuscuz. Não do Cuscuz, meu cachorro. Do cuscuz de tapioca com coco, servido por minha vó Nanoca às suas irmãs, minhas tias-avós, nas ocasiões em que se reuniam: tia Con, tia Lu, tia Mariinha, tia Stela e tia Zazá.

Tia Zuleika morava na Bahia, assim como Orlando. Tio Pedrinho, que pouco conheci, e tio Fernando já tinham morrido. Será que faltou alguém? Eram mesmo dez, os filhos de Elisa e Francisco? Acho que sim.

Minhas tias-avós chegavam para o almoço servido pontualmente ao meio dia. Se passasse um pouco desta hora, o avô Adriano reclamava. E a festa começava!

Seis irmãs reunidas naquela casa era o que bastava. Conversavam, costuravam, almoçavam, conversavam mais, lanchavam e gargalhavam. Tia Con, a caçula, invariavelmente soltava palavrões – um banquete para os meus ouvidos reprimidos. Mas tia Lu prontamente reagia com uma fala que se tornou sua marca registrada: “Respeite Adriano, Consuelo!”

Acho que, no fundo, tanto quanto eu, meu avô gostava das “transgressões”, mas não se permitia qualquer reação. Depois do almoço ele se retirava e as meninas tinham a sala só para elas, até a hora do cuscuz, quando ele voltava à cena, às quatro em ponto.

Eu era muito novo e não tinha como captar o teor das conversas, apenas a atmosfera. Mas imagino que aproveitassem para falar dos amores do passado, dos maridos do presente, das suas frustrações, do que esperavam dos filhos, netos, de boas receitas e sonhos. Será?

De tempos em tempos, tio Orlando vinha matar a saudade das irmãs e hospedava-se sempre na casa da vovó. As conversas em torno do cuscuz não seriam as mesmas diante de um homem, mas o encontro era ainda mais feliz.

Tio Orlando, sobre quem já escrevi, chegava carregado de farinha de mandioca fininha, cocada preta, umbu, alto astral e muito carinho. Trazia também o sotaque baiano, que o longo tempo no Rio de Janeiro havia tirado das irmãs.

Hoje, sou um dos tios avós do Gabriel, do Bernardo, do Diego, da Anna Clara e da Maria. Pena que meus irmãos e eu não reproduzimos esta história bonita da nossa infância. A mesma cidade é outra, o tempo é acelerado e não existe mais o quintal mágico das mangas, dos jambos, do abiu e dos sapotis… Umbu, farinha fininha e cocada? Quem liga?

Mas enquanto nossas memórias não falham, contemos, todos, sobre tempos que merecem registro. Hoje, trouxe um pouco de Anna, Consuelo, Eloína, Maria Flávia, Rosália, Stela, Adriano e Orlando. Saudade!

Foto: Casa da Usina, óleo de Gilberto Baptista, 1988.

PS Minha avó nasceu há 120 anos, no dia 2 de novembro de 1904, Dia de Finados. Mas ela sempre driblou a data fúnebre, comemorando o aniversário na véspera, no Dia de Todos os Santos. Por ironia, seu filho caçula também nasceu num 2 de novembro.