
Nesta semana, a prisão de empregados da empresa contratada pelo governo de um estado fictício para certificar a qualidade dos órgãos para transplantes lembrou-me o filme “I de Ícaro”, de 1979, do cineasta Henry Verneuil. A trama se desenvolve a partir do assassinato do presidente de um país fictício em desfile em carro aberto.
No alto de um prédio, um jovem aperta o gatilho de um fuzil. No entanto, a bala que atinge o presidente parte de outro ponto. Qualquer semelhança com o assassinato de John Kennedy 18 anos antes não é mera coincidência. A inspiração da cena partiu das imagens da limusine do presidente americano em Dallas, assistida no mundo todo.
Mas o argumento central do filme é uma experiência de laboratório para medir a capacidade de as pessoas receberem ordens, mesmo as inconcebíveis. Aquelas que se mostram extremamente obedientes são recrutadas para executar as tarefas mais condenáveis. Por exemplo, assassinar o presidente neste filme, participar do extermínio de um povo ou não testar adequadamente órgãos destinados a transplantes.
Minha contradição, no entanto, é associar o governo deste estado fictício com produções de cinema mais sofisticadas, já que seu desempenho é de corar de vergonha pessoas minimamente sensatas, por estar muito abaixo do nível das piores pornochanchadas. Mas a lembrança do filme de Henri Verneuil, protagonizado por Yves Montand, é recorrente.
Outro dia, Sua Excelência, o governador fictício, com ares triunfais anunciou a compra de determinada marca e cor de veículo para as operações secretas da sua polícia. A serviço de Sua Majestade, no cinema, conhecemos o belo Aston Martin de James Bond. A serviço do tal governador, uma frota de Nissan Kicks cinza, sobre a qual a bandidagem real já está avisada. Oficialmente!
Portanto, o que esperar como consequência para o caso trágico dos exames falsos negativos? Como confortar minimamente as pessoas que depositaram uma esperança enorme nesse tipo de procedimento tão delicado? Alguns funcionários e prepostos cegamente obedientes foram presos. Mas quem deu a ordem? Quem os contratou?
A nós, aos patetas com “p”, informam que tomarão as devidas providências, afastando os “responsáveis”, e que a princípio os sobrinhos do Pato Donald nada têm a ver com a história.
Certamente, é uma mera coincidência a ficha técnica dessa produção macabra:
Roteiro: irmão de Huguinho e Zezinho;
Direção: primo de Huguinho, Zezinho e Luisinho;
Efeitos especiais: tia de Huguinho, Zezinho e Luisinho;
Fotografia: cunhado de Huguinho, Zezinho e Luisinho;
Direção de arte: prima de Huguinho, Zezinho e Luisinho; e
Produção executiva: Pato Donald.
Patrocínio da Fundação Estadual de Saúde Fictícia e do Governo do Estado Fictício.
Fim…
Do mundo.