Les Bas-Bleus, lithograph by Honoré Daumier. Illus. in: Le Charivari. Paris, 1844 Feb. 26, pl. 7.

Para escrever a crônica do próximo domingo, interrompi a releitura do extraordinário romance A Luta, de Carmen Dolores. Pouquíssimas pessoas ouviram falar desta escritora brasileira que nasceu em 1852 e morreu em 1910. Menos ainda, quem tenha lido sua obra depois de sua morte. Mas, na virada do século XIX para o XX, esta senhora era uma sensação. Sob diversos pseudônimos realizou a maior pretensão de quem escreve: ser lido. No caso, ser lida! 

Quando seu marido Jerônymo morreu, em 1886, e tinha seis filhos para criar, Carmen Dolores passou a unir o necessário ao agradável. Em 1905, assumiu a coluna de Machado de Assis, no jornal O Paiz. “Pas mal” (nada mal), dir-se-ia no francês tão usado naquela “belle époque” de alguns. Por outro lado, também em francês, ela era designada pejorativamente de “bas bleu” (meia azul), um grupo de escritoras que desejavam criar mais do que filhos. Sobretudo, como é o caso aqui, daquelas que despiam os sexos, escreviam sobre casamento, divórcio, política, enfim, um território masculino cerrado. Em A Luta, Carmen trouxe ao mundo a “Bovary da Rua das Marrecas”. Uma delícia!

E por que escrevo sobre Carmen Dolores? Poderia ser Julia Lopes de Almeida ou Maria Firmina dos Reis, cujos livros também devem estar em alguma prateleira do Cemitério dos Livros Esquecidos, tão bem descrito pelo autor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Mas, em verdade, o maior estímulo para ler suas crônicas e este único romance proveio da curiosidade pessoal sobre minhas origens e laços de sangue – ainda que, no geral, sejam dados duvidosos ou muito relativos e fantasiosos, não determinantes do caráter dos que vêm depois. Carmen Dolores é um dos pseudônimos de Emília Moncorvo Bandeira de Mello, avó do meu avô.

Vô Raul era um sujeito muito especial. Não escrevia, mas também encantava. Todos os dias preparava a merenda da sua mulher, minha avó Aurora, professora numa escola de Vargem Grande, no antigo Distrito Federal. Cozinhar era tarefa dele. Papéis trocados? Naquela época, dizia-se assim. Morreu novo, pouco o aproveitei, mas não me esqueço dos bolinhos de bacalhau, da sua simpatia e do jeito especial de lidar com qualquer criança. Também não me esqueço das minhas chegadas à casa do Grajaú, mirando desde a soleira da porta o que havia dentro da cristaleira: cuca de banana, bolo de fubá, de laranja? 

Já me estendi demais na memória e no tempo… Melhor parar. O essencial é que Emília e Jerônymo tiveram o filho Gustavo e este teve o filho Raul com Elvira. Raul conheceu Aurora e, Jorge, meu pai, os teve como pais. E ainda falta o lado todo de minha mãe e um infinito de fatores para tentar, em vão, explicar o que somos. Ao subir na árvore dos meus antepassados, até o momento, tive a felicidade de não cair de nenhum galho. E lamento não ter herdado todos os dons do avô Raul…