
Na volta para casa, morrendo de calor, decidi pegar o ônibus para subir a Rua Marquês de São Vicente. Ele logo ficou apinhado de jovens que saiam das escolas e calculei que não seria fácil alcançar a porta para descer no meu ponto. Dei o sinal e embrenhei-me pelo corredor, perguntando se alguém mais desceria, até que ouvi: “calma tio Paulo, o senhor vai conseguir saltar”.
Tio Paulo? Era isso? Por quê? Projetei-me na calçada, com as mãos nos bolsos. Carteira no lugar, telefone também, nada havia caído pelo caminho e voltei a me perguntar por que a menina me chamara de tio Paulo… Mauro, com certeza, não tinha sido… Eureka! Mas, poxa, que crueldade. A danadinha não me achou velho, como um tiozão, achou-me morto!
Tio Paulo foi aquele senhor levado pela sobrinha a uma agência bancária em Bangu já falecido. Antes do sepultamento, ele faria um empréstimo – destes que nos oferecem diariamente, sobretudo, quando não precisamos ou já estouramos todos os limites do mundo dos inadimplentes. Tio Paulo, que Deus o tenha, guardadas algumas diferenças, funcionou na Zona Oeste do Rio de Janeiro como o célebre conquistador da Espanha medieval, El Cid, que participou da sua mais importante batalha já morto.
Que imaginação a dessa passageira da linha 539! Que requinte! Que forma criativa e sutil de expressar seu etarismo! Mas, belisco-me! O tio Paulo que vive em mim definitivamente não morreu e reagirá. Decidi rejuvenescer! Vou raspar a barba grisalha, colocar duas rodelas de pepino nos olhos, usar um boné e, semana que vem, com certeza, na mesma hora, naquele mesmo ônibus, terei um novo encontro com a imagem que espelho. Oxalá não dê um jeito nas costas ou nos joelhos ao subir. Tio Paulo é o cacete!