
Recebi uma foto do meu pai na ultima terça-feira. Minha irmã lembrava-nos de sua morte há dois anos. É das minhas preferidas. Eu estava ao seu lado e sei bem como a imagem traduz fielmente como ele se tornou a partir de certa idade: feliz e bem humorado, desde que estivesse perto de minha mãe, dos filhos, netos, bisnetos e dos muitos amigos acumulados ao longo da vida.
Ele está à mesa, exercitando toda sua gulodice. Quando havia batata frita, então, era o paraíso. Mais ainda: a fotografia foi tirada em Paris, cidade que ele adorava, numa relação que nada tinha de esnobe. Seu flerte com Paris começou na juventude com os livros e, aos 50 anos, o amor foi consumado quando ele e minha mãe conheceram a cidade pessoalmente, para nunca mais a deixar escapar. Tiveram o privilégio de voltar muitas vezes e a última foi quando a foto foi tirada, em 2016.
Ele, aos 89, e minha mãe, aos 85, festejavam 65 anos de casados comigo e com Ana, minha irmã. O resto da turma infelizmente não pôde ir. E foi uma farra! Onze horas de voo na classe econômica de sempre não o derrubaram. E nem falo de minha mãe. Quem a conheceu sabe que para viajar, sobretudo para Paris, ela seria capaz de ir em pé ou de pilotar o avião.
A programação das oito noites foi definida no Rio. Previa flanar, almoçar, jantar e flanar mais ainda. De manhã, eu e ele pegávamos um ônibus – sempre acessível e seguro para os mais velhos -, enquanto minha mãe e minha irmã saiam a pé. Escolhíamos uma praça e sentávamos para contemplar e conversar. Engenheiro em tempo integral, ele me fazia reparar na qualidade dos meios-fios, nas calçadas de asfalto à prova de tropeços, nas grades ajustáveis no pé das árvores, nas eclusas dos canais e nas mansardas de zinco… Como era tudo tão bem construído.
A conversa ia longe, até a chegada das “meninas” para tomarmos um sorvete e escolher onde almoçar. À tarde, eles descansavam até a hora de um passeio à beira do rio antes do jantar. Ele não aguentava mais as longas caminhadas, mas encontrou fôlego para atravessar a maior parte das pontes que o encantavam e percorrer cantos e passagens que sempre surpreendem. Quando necessário, fazíamos um pitstop para um “verre” ou uma “coupe”. Foi uma delícia! Nós quatro nos deixamos levar, nos deixamos ir pelas ruas, sem um objetivo preciso… A não ser o de curtirmos juntos mais uma refeição, se possível, com um prato extra de batata frita. Saudade…