
A abertura dos Jogos Olímpicos de Paris foi precedida por uma sabotagem em trechos da rede ferroviária da França. Um susto! Mas, às 14h30min, precisas, o show começou. Não um espetáculo como em edições anteriores, dentro de um estádio, como aquele em que se viu a lágrima do mascote Misha escorrendo pela arquibancada, talvez, expressando tristeza com o boicote parcial aos Jogos de Moscou de 1980.
Paris ousou, foi megalô e pode ter pecado em alguma medida. Apesar de que se dirá que uma cidade com aquela quantidade de monumentos, de obras de arte a céu aberto, teria que mostrar tudo mesmo. Mas isso foi e é possível? Penso que não. Foi uma cerimônia muito fragmentada.
O pianista Alexandre Kantorow interpretou Ravel sobre uma das lindas pontes da cidade. Mas quem viu? Quem ouviu? Lady Gaga se apresentou ali, o excepcional bailarino Guillaume Diop acolá e um magnífico espetáculo de bonecos trapezistas foi encenado no Pont Neuf. Além de outras pequenas apresentações espalhadas – o que me faz crer que a cerimônia foi concebida “à vol d’oiseau”, para ser vista a partir do voo de um pássaro – o que só seria possível através da edição de muitas imagens, para ser vista nas TVs, em redes sociais e nos smartphones.
Esta “abertura pot-pourri” também me fez pensar em um concerto interpretado por uma orquestra dividida. Violinos, violas e violoncelos, na Place Vendôme. Contrabaixos e harpa, na Conciergerie. Flautas e oboés, no Hôtel de Ville. Clarinetas e fagote, no Chatelêt. Já o maestro, aos pés da Torre Eiffel, foi submetido à batuta da tecnologia digital, que imprimiu o ritmo. Uma sinfonia virtual!
O final caiu bem. Céline Dion superou-se no seu canto, emocionou e a pira olímpica decolou a bordo do que seria o primeiro balão de hidrogênio. Uh la la! Napoleônico! No céu, o fogo olímpico iluminará o Eixo Monumental durante os Jogos.
Que haja paz sob o céu de Paris! E haveria muito mais a mostrar para o mundo: lugares, pessoas, personagens, séculos de história! Mas como contar tudo numa única cerimônia? Afinal, Deus levou sete dias para criar o mundo e quase não conseguiu descansar porque Paris deu um trabalhão! Há quem diga que Ele quase perdeu o humor.
PS Quanto à narração da Globo, só uma coisa a dizer: taisez-vous, Galvon!