
Maria Babosa
Quando meus pais saíam à noite e não ficávamos com nossos avós, Maria Babosa, que trabalhava para uma tia, ia para nossa casa ficar de olho em mim e em meus irmãos. Uma figura! Dentuça, ela fumava Continental sem filtro e contava sempre as mesmas histórias para dormirmos: “Os Três Caroços de Manga” e “O Médico e a Elefanta”. Ela dizia elefoa.
A primeira história foi meu primeiro contato com o surrealismo. Uma mulher havia plantado três caroços de manga em três vasos. À noite, se jantava antes da chegada do marido, ouvia três vozes misteriosas:
– Já vai comer?
– Sem seu marido?
– É costume dela!
Eram os três caroços de manga a censurá-la. Só uma mulher desnaturada comeria antes do marido. E nós morríamos de rir com as três únicas frases da história, eu, com uma pontinha de medo, confesso. Depois, Maria passava à seguinte, que associo ao filme Atração Fatal, estrelado por Glenn Close.
“Era uma vez, um médico e uma elefoa. A pobre elefoa caminhava na rua quando pisou num espinho e começou a chorar. Até que um médico se aproximou e retirou o espinho da sua pata. A elefoa ficou encantada e se apaixonou pelo médico. Aonde ele ia, a elefoa ia atrás. Ele ia para o hospital, a elefoa ia também. Ele ia para casa, a elefoa ia atrás. Ele ia ao banheiro, a elefoa ia também. Ele ia tomar banho, a elefoa ia atrás. Ele ia jantar, a elefoa ia também…” E ele ia, ia, ia, e ela ia atrás, a elefoa ia também…
Maria não parava de descrever a perseguição até cairmos no sono. Quando Cecília era pequena, para fazê-la dormir, eu bem que tentava empregar a técnica hipnótica da Babosa, mas minha filha era dura na queda. Invariavelmente, eu dormia antes, sob o efeito do feitiço da minha infância.
Falava-se que os poderes da Maria haviam surgido depois de uma fruta pão ter caído sobre sua cabeça. Um pé de fruta pão enorme no nosso quintal, de tempos em tempos, bombardeava quem passava pelo caminho entre a casa dos meus avós e a nossa. Sei que Maria Babosa morreu há décadas, mas sua presença amorosa e suas histórias ainda são muito vivas.