
Em nova tentativa de seguir instruções médicas e fazer exercícios para o corpo, matriculei-me numa academia. Numa sala cheia de aparelhos, alguns, semelhantes a instrumentos de tortura, escolhi a esteira, que me lembra o futuro do meu passado, o desenho animado dos Jetsons. A grande vantagem da corrida na esteira, que não leva a lugar nenhum, é não ter que fazer o caminho de volta já cansado. De resto, é de uma monotonia saariana.
Mas desenvolvi um artifício que funcionou bem e que compartilho com quem não é entusiasta dos exercícios físicos. Saquei meu telefone celular do bolso e escolhi uma música que caiu como uma luva para a minha atividade aeróbica. Pus a tocar o Bolero de Ravel e liguei a esteira numa velocidade de 2 km/h – a velocidade de flanar.
O Bolero tem cerca de 15 minutos e apenas dois compassos. O ritmo é uniforme e invariável, mas a sua mágica é extraordinária. O tempo avança e uma sucessão de instrumentos ganha a cena para expandir sons e sensações até um final apoteótico.
Na esteira, tal qual um maestro, eu aumentava a velocidade e a inclinação da pista no tempo em que flautas, oboés, clarinetes, saxofones, trombones e as cordas se incorporavam à orquestra, desenvolvendo a melodia.
No painel do aparelho, os meus registros, a minha partitura, marcavam cinco, seis, sete, oito, nove km/h; zero, um, dois graus de inclinação; além da distância percorrida e das calorias consumidas. Os batimentos cardíacos aumentavam mais e mais, ao ritmo da magistral obra de Ravel, até o momento dos tímpanos e daqueles dois pratos metálicos enormes, que marcam o final triunfante.
Ufa! Como aquilo cansa! Mas a missão foi cumprida! Exercício feito e consciência tranquila! E, creia, você vai pensar que é mentira, mas não é! A música que tocou a seguir nos meus fones de ouvido, do mesmo Ravel, era a Pavana para uma Infanta Morta. Mas essa música não traduziu propriamente como me senti no final. Uma princesa defunta? Longe disso! Antes, um plebeu que realizou uma dura tarefa e, lógico, ávido por um refresco.