Ser caçula é mais do que a simples raspa do tacho. É uma corrida de obstáculos que deveria se tornar modalidade olímpica. Quanto mais irmãos haja antes do caçula, mais, ele ou ela, terá que se superar para existir. Eu, por exemplo, caçula de cinco, assim como outros da minha geração, nasci porque as pílulas anticoncepcionais não existiam. E, lógico, como meus pares, suportei a dúvida de ter sido ou não achado dentro da privada. “Mamãe te viu dentro da privada. Antes de dar a descarga, ficou com pena e resolveu te embrulhar com papel higiênico”.

Provar o contrário do que dizem os mais velhos não é fácil, e caçulas não têm registro histórico! Os primogênitos, os queridinhos da mamãe e do papai, têm fotografias com todas as idades, álbuns com relatos dos primeiros passos, das primeiras falas e gracinhas. Têm mechas de cabelo, latinha com dentes de leite, diploma do jardim de infância e convites de aniversário de um, dois, três anos, com a fotografia dos lindinhos. Quanto aos caçulas, no máximo e por conta própria, poderão obter um teste de DNA no Instituto de Criminalística Carlos Éboli.

Mas o tempo passa e até o caçula cresce. Na maior parte do tempo, sob as ordens do pai, da mãe e sob a tirania dos irmãos mais velhos. Tem um aguçado instinto de sobrevivência aliado a táticas desenvolvidas a duras penas quando aprende a ler. Aliás, o caçula é um espião nato. Precisa ouvir atrás das portas as muitas informações que lhe são sonegadas. 007, por exemplo, era caçula, o sétimo filho. Quem leu Ian Fleming no original sabe disso.

E mais! O caçula é um inventor de primeira grandeza. Marie Curie e Thomas Edison eram caçulas. Os irmãos de Edison eram terríveis e sempre o deixavam preso no escuro, mas o danadinho inventou a lâmpada. Ah! Johann Sebastian Bach foi o último filho do Sr. e da Sra. Bach. O que seria da música sem este caçula?! O mundo seria ainda mais primogênito e dodecafônico!

Hoje, sessenta e um anos depois de vir ao mundo, felizmente, sinto-me capaz de tratar de décadas de bullying. Foram anos de terapia, percorrendo os melhores consultórios, de Viena a Bagé, e passei a ter convicção de que não foi porque nasci mais tarde que não posso me sentar na janela. Perdoo-me por ter desejado a morte do meu irmão Duda, cuja cama ficava perto da janela.

Meus irmãos costumam rir dessa história da cama na janela e do meu desejo infantil. Eu também acho engraçada. Mas sorte deles que, na época, eu não conhecia determinadas substâncias e as propriedades da estricnina. Afinal, Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução, também era caçula.  E provou cabalmente que pela seleção natural só o caçula sobrevive.