Quem mora na Zona Sul do Rio de Janeiro conhece o moço do ferro velho.

Olha o carro do ferro velho. O moço está passando! Compra freezer velho, geladeira velha, ar condicionado velho, compra cobre, alumínio e metal. Dá uma limpeza no seu quintal. Ele está passando, mas ele volta.” 

E volta mesmo! O tempo todo. Escutamos sua voz numa gravação semelhante ao do caminhão do gás em outras regiões. E, no final da fala, ouve-se o refrão de uma música que eu não conhecia: “Uma nova históóória, uma nova históóória,  Deus tem para mim!”. 

Pois fui pesquisar a tal música que o moço do ferro velho escolheu para o seu périplo diário e encontrei! O título é mesmo “Uma nova história”. É da lavra do cantor Fernandinho. Seus discos são gravados ao vivo na 2ª Igreja Batista de Campos e o álbum de mesmo nome foi eleito o 82º melhor disco da década de 2000, de acordo com lista publicada pela revista Super Gospel. Não é pouca coisa! Mas não quero e nem saberia tratar da influência das igrejas evangélicas na cultura e na vida de tanta gente no Brasil. 

Meu tema é o carro do ferro velho, que percorre diversas ruas da Cidade. Aliás, com uma frequência que espantaria qualquer mosquito da dengue. Bastaria que o Poder Público fornecesse a máquina de fumacê. E, como o governador do Rio também é cantor gospel – talvez, uma de suas raras virtudes conhecidas – Sua Excelência poderia emprestar sua voz para o negócio do ferro velho, acrescentando mais uma frase: «O moço está passando, compra fogão velho, microondas velho e MATA MOSQUITO!» 

Nossos problemas com a dengue acabariam! Medida singela, concordam? Se o homem do ferro velho não preencher os requisitos legais para contratar com o governo, dá-se um jeitinho. Faz-se um convênio com uma empresa de fachada, cujos sócios seriam fantasmas. Portanto, trabalhariam de graça. Afinal já morreram, e o custo seria de poucas centenas de milhões de reais para o imprescindível marketing. Por fim, para os alto-falantes-fumacês tornarem-se um hit, acrescento três cerejas ao bolo: a música de Fernandinho seria cantada por um trio: MC Claudio Castro, MC Garotinho e MC Paes. Só de ouvi-los, com toda certeza, os mosquitos da dengue fugiriam para outras freguesias.

Em tempo. Para quem tem o privilégio de não conhecer as “cerejas” do bolo, que talvez sejam jacas, são eles: o atual governador do Estado, um ex-governador e o atual prefeito da capital.