
A revista semanal O Tico Tico, publicada pela primeira vez em 1905, era voltada ao público infanto-juvenil. Esta foto preciosa saiu na edição de primeiro de março de 1916, uma quarta feira que antecedeu o Carnaval.Na primeira página, uma ilustração do caricaturista e chargista Aryosto e a letra de uma marchinha “para cantar com a toada de O Meu Boi Morreu”. Adiante, uma recomendação expressa dos editores ao público: “Aos pequenos recomendamos que o lança perfume pode fazer muito mal aos olhos. Devem evitar utilizar d’elle em direcção do rosto.”
Na página seguinte, li a instigante história de “A Ambiciosa”, uma mulher casada, com um filho, que invejava quem passava de carro e em sedas pela sua porta. De tanto reclamar, o marido saiu pelo mundo atrás da riqueza desejada pela esposa. Tentou trabalhar nas minas de ouro da Califórnia, mas seu navio pegou fogo. Depois, tornou-se caçador de pérolas na Índia, mas a história só termina na penúltima página da revista. Conto o final para quem quiser. Avancei na leitura e cheguei à coluna “As Lições de Vovô aos seus Netinhos”. Trata da necessidade dos estudos. E há muito mais! Quadrinhos de Baptista, Bento e Bull-Dog, As Aventuras do Chiquinho e A Rainha dos Corsários, um romance de aventuras publicado em capítulos.
A Tico Tico era um sucesso. Obviamente, vendia espaço para propaganda comercial. A Emulsão Scott era uma habituée das suas páginas, assim como “Dioxogen, para talhos, arranhões e pisaduras.” Do anúncio do Parc Royal, um apelo aos pequenos: “Para darem prova de muito juizinho e muito bom senso devem dizer sempre às suas mamães que querem roupas compradas no Parc Royal”. E, em caixa alta, como se fosse uma notícia, a propaganda do Leite Condensado Suisso Moça, alertando sobre imitações inconvenientes “para a saúde das creanças”.
Viagem longa, esta minha de hoje. Deus Cronos me fez retroceder 108 anos. A legenda da foto, colhida da caixa de memórias dos meus pais, é a seguinte: “Georgina, Josepha e Aurora, gentis leitoras d’ O Tico Tico (como prova photographia) e filhas do Sr. Jorge Foutié, commerciante d’esta praça.”
A menina à esquerda é minha avó Aurora, a poucos dias de completar 10 anos. Saber ler era um privilégio. Hoje, deixou de ser para a maioria, mas já não desperta as mesmas paixões.