
Há dez anos, escrevi a crônica “Momocracia”. O texto me rendeu bons comentários, mas também a pecha de casmurro. Afinal, quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Não é? Sequer adiantou ter sublinhado que adorava samba. Só confessei não gostar de Carnaval. Pelo menos, tal como se tornara no Rio.
Hoje, tendo aprendido a não produzir provas contra mim, neste feriado prolongado recolho-me e, se for inevitável, acompanho os enredos das escolas de samba dedilhando discretamente nas pernas. Se o olhar de algum amigo folião cruzar com o meu, simulo um sorriso de serpentina e aponto os dois dedos indicadores para o céu.
A vida evoluiu. Não no ritmo e com a harmonia que eu desejava, mas segui em frente e revi muitos conceitos. Aliás, um bom hábito a ser cultivado antes de chegarmos ao final da avenida. Por exemplo, jamais relativizar a Momocracia! Hoje posso afirmar que me tornei um momocrata radical, ainda que, no mundo ideal, durante o recesso do Carnaval eu prefira estar numa praia silenciosa de águas claras ou no alto da serra a desfrutar de um friozinho e um bom vinho.
Seja como for, a história provou que não há melhor sistema de vida do que a Momocracia. É preciso cair na real e no samba porque depois do reinado de Momo serão 355 dias sob a égide do cinismo e da desfaçatez.
Depois do Carnaval, tudo voltará ao normal, e o normal é muito ruim. Deputados e senadores eleitos por nós, os foliões, voltarão a legislar em causa própria. Juízes voltarão a vestir aquela fantasia preta cafona do teatro da justiça. Já os governos, de todas as esferas, voltarão a prometer tudo o que só se conquista no Carnaval.
Somente no mundo das alegorias e dos sonhos, os brasileiros pobres se tornam ricos, bombas de efeito moral dão lugar a lança perfumes, os apitos não reprimem ninguém e Suas Excelências dão uma trégua.
Portanto, onde quer que estejam e da forma como for, desejo a todos que sejam felizes sem moderação. E cantemos a marchinha: “Quanto riso, oh, quanta alegria!”. Somos mais de 200 milhões de palhaços no salão. Mas não nos levem a mal. Hoje é carnaval!