
Há famílias e há famílias. Há ótimas e péssimas relações familiares. Não existe regra. Famílias são regidas por tapas, beijos, amor, ódio, interesses, manipulação, desapego, gritos, silêncios… Sentimentos e atitudes esquadrinhados pela História, pela Medicina, pela Psicologia e, óbvio, pela Arte.
Um antigo político mineiro dizia que a política é como nuvem. A cada momento que a vemos está diferente. Pois ouso dizer que as famílias também são como nuvens. Às vezes, fofinhas iguais a carneirinhos, no momento seguinte, pesadas, a relampejar e a descarregar energia em excesso.
Estas elucubrações sobre as famílias surgiram depois que acompanhei a premiação da extraordinária série de TV Succession. Que família!!! Que relações tóxicas! Eu também tinha lido sobre o lançamento do novo livro de Margaret Atwood, My Evil Mother, cuja tradução para o português eu aguardo. Mães diabólicas existem? Sem dúvida, assim como pais, filhos e irmãos.
Mas o lado delicioso da memória também aflorou. No caso, o curta metragem de Woody Allen, Oedipus Wrecks ou Édipo Arrasado, um dos três Contos de Nova York (1989). Imperdível! A mãe do personagem Sheldon Millstein desponta no céu da Big Apple, contando os fatos mais embaraçosos da vida do filho – tudo que ele gostaria de esquecer. Do céu, como se fosse uma grande nuvem, a mãe de Sheldon, hilária, discute a vida do filho com a cidade.
E você? Ocasionalmente, enxerga a sua família no céu da sua cidade, tal qual uma colossal cumulus nimbus a infernizar a sua vida? Aposto que sim.
Torquemother, o título desta crônica, é um trocadilho infame com as mães em sentido amplo. Associo a palavra “mãe” em inglês ao nome do célebre torturador da Inquisição.
A propósito, pensando com meus botões, a mãe de Tomás de Torquemada não deu limites para o filho ou, se mãe realmente sabe de tudo, como diz o provérbio, sua alma deve estar ao lado da do filho, ardendo no Inferno. Pena que ela não tenha se espelhado na mãe do Sheldon. Quando muito, teria matado todos de rir.
Como sempre, nosso escritor, cronista de rara percepção do ao redor que nos envolve e angustia, traduz o dilema familiar com precisão: chuvas, trovoadas e beijos…quando não é janeiro em nossa cidade, claro….
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