
Entre leituras instantâneas no telefone, quando vi Cecília com um prato de miojo surgido do nada, minha memória retrocedeu ao tempo em que tinha 19 anos, em 1981. No ano anterior, eu tinha perdido um grande amigo e uma grande referência, meu avô Adriano.
Mesmo não tendo ido muito além de Águas da Prata – estação de águas em São Paulo – meu avô adorava viajar e seu grande sonho era ir à Normandia. Como ele também adorava vacas, talvez tenha juntado dois prazeres num mesmo sonho: conhecer os lindos pastos do noroeste da França.
Eu era bem criança quando fomos ao Centro da Cidade comprar uma viagem de navio ao Amazonas. Eu e ele estávamos animados. No entanto, uma semana antes de o navio zarpar meu avô decidiu não embarcar. Minha avó Anna, sua companheira inseparável, estava morrendo de medo da viagem e ele amorosamente cedeu. Fui com meus pais. Vovô ficou fora da aventura.
Mas foi com ele a primeira viagem de avião, em 1979. Minha avó tinha morrido no ano anterior e fomos os dois a Salvador. A essa altura, viajar já não o encantava mais. Ele estava triste. Certamente, foi para me fazer feliz. E conseguiu. Vibrei por andar de avião, e da Varig! No ano seguinte, o avô Adriano quis morrer. O sonho da Normandia não se realizou, mas ele deixou sementes. Em 1981, tive o privilégio de ir à França.
Até hoje, viajar é dos meus maiores prazeres. E pode ser para bem perto, como ir a Secretário, região de Petrópolis, onde meu avô teve um sítio, lógico, com vacas! Soube que certa vez ele bateu com sua camionete num barranco porque se distraiu vendo uma vaquinha holandesa que devia ser realmente linda… Mas este texto, iniciado com o macarrão instantâneo da Cecília, está indo longe demais…
1981, setembro. Cheguei a Paris e recordo-me de ter começado a rir quando avistei o Sena, suas pontes e a Notre-Dame, apesar do medo de estar viajando sozinho com francos franceses na cueca, sem saber ao certo por onde começar. Não dava para colocar Paris no Google e fazer buscas no Booking. Onde ficar? Comer o quê? Tudo foi decidido “sur place”. Saint-Germain-des-Prés não era tão chique como hoje e havia hotéis pagáveis. Fiquei na Rue des Saints-Pères e a primeira refeição foi um steack au poivre. Sabia que viria um bife, mas só aprendi o que era poivre após a primeira garfada. Recompus-me com a sobremesa, uma inesquecível tarte aux pommes. Que aventura essa… instantânea na memória.
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Texto de 2020 reescrito com uma dose extra de saudade. Seu aniversário está próximo.