Já escrevi sobre a célebre bagatela para piano nº 25 em lá menor de Beethoven, conhecida entre nós pelo título “Pour Elise”. Infelizmente, há tempos, sua melodia é associada ao caminhão do gás do interior de São Paulo. Talvez seja das músicas mais tocadas de todos os tempos: Laralaralaralaralá, laralará, laralará… e tudo recomeça igual nos alto-falantes do mercador de botijões de gás. Uma tragédia!

Mas eis que, hoje, a caminho do trabalho, ao passar de carro em frente aos caminhões de peixe da feira da Avenida Osvaldo Cruz – o que me deu uma baita vontade de comer sardinha frita “harmonizada” com um chope gelado, fui surpreendido pelo rádio com o Coro dos Escravos Hebreus, da ópera Nabucco de Verdi.

A música é linda e recordei-me da apresentação da ópera no Theatro Municipal com o canto de um grupo de escravos a lamentar o destino às margens do Rio Eufrates, na Babilônia do Rei Nabucco. O problema é que, por outro lado, não consigo deixar de associá-la à propaganda política do ex-deputado Álvaro Vale, do Partido Liberal. E, pior, imaginando o momento em que volume do coro baixa para ouvir um “meus amigos” num tom grave. Outra tragédia!

O consolo é o de saber que os mais jovens que eu vieram ao mundo imunizados e têm o privilégio de ouvir o Coro dos Hebreus, o “va pensiero” lindamente musicado por Giuseppe Verdi, sem essa armadilha da memória. Pelo menos, da minha memória, povoada por muita coisa bonita, mas também com bobagens que já deveriam ter sido apagadas.

Sim, nossos pensamentos voam e voam longe, dão piruetas e retrocedem no tempo. Surgem do nada ou, como é comum, a partir dos nossos sentidos. A minha visão da feira instigou a lembrança do meu olfato e do meu paladar. A audição de um conjunto de acordes me fez subir ao Céu por sua beleza e encanto. Mas este mesmo sentido fez-me despencar ao Inferno, onde me queimei pela associação infame da bela música com a farsa dos partidos políticos. Eis o tato!