
O rei inglês George VI fez um discurso que entrou para a história e inspirou o extraordinário filme “O Discurso do Rei”, com Colin Firth e Geoffrey Rush. Foi quando o Reino Unido declarou guerra à Alemanha nazista, em 1939, e era preciso unir o país diante de inevitáveis sacrifícios. A figura de um rei veio a calhar para então chefe do governo, Winston Churchill.
O filme, de 2010, transporta-nos para o momento da transmissão deste discurso pelo rádio, ao vivo, sem possibilidade de qualquer edição. George VI (Colin Firth) era gago e o suspense foi total. Qualquer hesitação na sua fala seria interpretada como um sinal de fraqueza diante de um inimigo poderosíssimo. De modo que, para este rei, a leitura do documento foi o equivalente a atravessar o Canal da Mancha a nado. Apoiado pelo terapeuta Lionel Logue (Geoffrey Rush) e embalado por um trecho precioso da sétima sinfonia do alemão Beethoven, George VI cumpriu sua parte.
Outro filme da minha lista de preferidos também tem na figura de uma espécie de fonoaudiólogo o elemento de transformação de uma personagem. Refiro-me a My Fair Lady (1964), baseado na peça Pigmaleão de Bernard Shaw. Rex Harrison, ou melhor, o professor Higgins, aposta que a fala ordinária de uma florista de rua, Eliza Doolittle, interpretada por Audrey Hepburn, poderia ser transformada, em dicção e conteúdo, no discurso de uma princesa. Com bolas de gude enfiadas na boca de Eliza e exercícios do tipo “trava línguas”, o trabalho é exitoso: “The rain in Spain stays mainly in the plain!”
No Brasil, Bibi Ferreira e Paulo Autran certamente não fizeram feio na versão brasileira do musical, com o célebre “O rei de Roma ruma à Madri…” Mas confesso que este texto surgiu com uma associação desagradável e para lá de bizarra, que fiz entre a gagueira de George VI e as dificuldades de fala do atual governador do Rio, Claudio Castro.
Elucubrei sobre a possibilidade de transformação de uma figura tosca, sem bagagem e que não inspira confiança, em alguém capaz de fazer um « Discurso do Governador », em razão de uma inevitável guerra do Estado contra o Crime Organizado para restabecer a paz. Nonsense, óbvio! Além do quê, enquanto o primeiro ministro do Rei era Churchill, o chefe do Parlamento fluminense atende pelo nome de Rodrigo Bacellar.
Em abril deste ano, depois de ser flagrado farreando na Londres de George e Winston, Bacellar declarou: “Não é porque sou deputado que não tenho direito de sorrir, de cantar um pouco, de brincar, de fazer cocô, de soltar pum, todo mundo faz.” Portanto, é óbvio que nem Lionel Logue nem o professor Higgins seriam capazes de transformar esses dois tristes personagens da política do Estado do Rio em arremedos de estadistas, na realidade ou na ficção. Deprimente… Mantenhamos a calma e sigamos em frente.