Filho único do empresário Pedro de Baux com Dulce Cândida de Baux, Demétrio sempre foi cercado de toda atenção. Desde cedo, seus pais decidiram que ele ingressaria no Instituto Rio Branco para se tornar diplomata. Dinheiro e ambição não lhes faltavam. Moravam num apartamento enorme na Avenida Atlântica e meu primo, Ronaldo, era seu professor particular de Língua Portuguesa e Literatura. Duro, pai de três filhos, Ronaldo se virava para chegar ao final do mês com a maioria das contas pagas. Três vezes por semana, de ônibus, ia da Penha a Copacabana dar aulas ao futuro diplomata.

Levava duas horas para chegar e dar uma hora e meia de aula. Em geral, chegava com fome, mas a mãe de Demétrio sequer oferecia uns biscoitinhos. Maria, a empregada, abria-lhe a porta e, dez minutos depois, Dulce Cândida surgia para verificar se os dois estavam realmente estudando. Depois, desaparecia. Meu primo se sentia minúsculo naquela mansão suspensa, invadida pelo mar profundo de Copacabana e de onde se via o relevo de Niterói. 

Certo dia, Ronaldo chegou à casa de Demétrio com uma forte cólica intestinal. O trânsito estava melhor e ele decidira matar a fome com uma coxinha de galinha e um suco de uva, vendidos por um ambulante. Erro crasso! Assim que Maria abriu a porta, percebeu que o professor de Demétrio precisava ir ao banheiro e indicou a porta do lavabo. Demétrio já estava na mesa quando, em seguida, meu primo, aliviado, sentou-se para começarem o estudo. Mas, mal tinha se instalado, ouviu: “Maria! Socorro! Tem um bicho podre no lavabo! Que horror, Maria! O que houve?! Alguém entrou aqui? Quem?”

Como enfrentar aquela questão, meu primo não sabia. Sentia-se ínfimo. Só desejava que os minutos e o mau cheiro passassem rapidamente, pois a mãe de Demétrio ainda buscava a razão do fedor. “Conseguiu, Maria?! Use Diabo Verde, creolina, meu Deus! Chame o porteiro!”. Meu primo cumpriu a sua hora e meia de aula e foi embora. Sequer esperou a mãe de Demétrio voltar à sala para lhe pagar. O trocador do ônibus o deixaria pular a catraca, pelo menos, assim esperava.

A história é real. Tomei apenas o cuidado de mudar os nomes. Meu primo se tornou um professor muito bem sucedido e Demétrio jamais se tornou diplomata. O mais perto que chegou do título podia ser notado pelo seu perfil. Com o queixo muito saliente, era prognata. Verdade seja dita, nunca quis ser diplomata. Tinha dificuldade para compreender determinados conceitos e misturava muita coisa. Não havia santo que o ensinasse que casas “germinadas” não existiam, que “tutifruti” não era uma fruta com gosto de… “tutifruti”, que seu pai não “tinha chêgo” do trabalho nem Maria “tinha trago” o Diabo Verde. Pobre Demétrio…