Folheava o jornal sem esperar qualquer novidade: massacres no Oriente Médio, brigas por território entre Milícia, Estado e Tráfico de Drogas no Rio, flutuações da Bolsa e do dólar e as intermináveis investidas do Centrão* na guerra das reeleições. Basicamente, era isso. Mas, de repente, uma foto despertou uma memória de 1980, o retrato de um homem.

Eu tinha 17 para 18 anos, quando comecei o curso de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no prédio histórico da Praia Vermelha. Pelos seus longos corredores azulejados, eu caminhava assustado. O que estava fazendo ali? Que futuro teria? Economia?! No currículo, muitas matérias me atraíam: História Econômica, Sociologia, Antropologia, Ciências Políticas… Mas havia Cálculo… Um e dois! Estatística, Econometria… A questão era até quando eu me enganaria.

Divagações à parte, achei o sujeito, o do retrato no jornal, envelhecido e ao mesmo tempo familiar. Mas, decorridos 43 anos, não tendo o sobrenome Gray**, o que esperar? Uma pesquisa no Google deu razão aos meus neurônios. Era o próprio: o jovem diretor do centro acadêmico da faculdade, que, pelos idos de 1980, circulava pelos mesmos corredores que eu, distribuindo panfletos e chamando atenção dos calouros para o momento da abertura política do país. « O povo unido jamais será vencido », « Diretas já! ».

Hoje, leio que é deputado federal por um estado do Nordeste. Aliás, desde sempre é deputado ou ocupa cargo público. Foi importante na época do governo do conterrâneo Collor de Melo e filiado a muitos partidos, cada um pior que o outro. Recentemente, militou nas trincheiras do PP e do PR e, de acordo com a reportagem, pediu licença ao onissapiente Valdemar Costa Neto para sair do PL. Que trajetória!

Seja como for, não há novidade nisso. São as conhecidas mutações. Democratas de outrora negociam suas almas com o Tinhoso em troca de sucessivas reeleições e seu pacote de benefícios. O tempo passa e eles se mantêm na cúpula. Depois, será a vez dos herdeiros das suas capitanias. Os retratos nos jornais e nos seus gabinetes podem até ser trocados, a cada novo mandato ou função. Eles são « Dorians » com outro tipo de consciência ou feitiço. Mister Oscar Wilde ficaria encantado. Negociam com o Diabo de igual para igual e, quanto à aparência, com o que ganham, fazem implantes capilares, harmonizações faciais, botoxes e, cá entre nós, com o orçamento secreto do Congresso, nem o Inferno é o limite.

*Centrão: coletivo de políticos brasileiros vivaldinos e exceção à máxima de que a virtude está no centro, no meio. Longe disso.

**Gray, sobrenome de Dorian, personagem do romance de Oscar Wilde, cuja aparência não se alteraria com o tempo, diferentemente da sua alma.