
As fronteiras são, quando muito, males necessários para a preservação de culturas e identidades, okay. Mas por que tanto mau humor quando cruzamos algumas delas? Chato é enfrentar uma fila enorme para receber um carimbo no passaporte e ter que fazer cara de paisagem quando o guarda acha que você é obrigado a ser fluente em holandês, francês, inglês ou seja lá qual for o idioma do outro lado. Mas, pelo que tenho lido, as manifestações de mau humor são mais sentidas depois de vencida a barreira da polícia, em especial, as dos parisienses.
Uma amiga postou recentemente fotos suas em Paris, feliz da vida, mas com a observação de que os franceses da capital estão se superando na antipatia. Ora, com algum conhecimento de causa, ouso dizer que essa é uma das atrações de Lutécia. Por exemplo, entrar num restaurante em Paris e pedir o cardápio em inglês não tem preço. Melhor ainda é compreender todos os impropérios do garçom e seguir falando com ele em inglês. Caso pragueje mais, sugiro que você fale em português. Ele vai se jogar no Sena.
Brincadeiras à parte, penso que a Lutécia contemporânea não pertence somente aos franceses, assim como outras cidades do mundo não são exclusivas de italianos, americanos, ingleses e brasileiros. Não importa o que façam seus habitantes, elas adquiriram outra dimensão, universal, e os prazeres que ali encontramos pertencem a qualquer um que tenha o privilégio de viajar.
Imagine visitar Paris numa semana em que todos os seus habitantes passarão sete dias de férias no litoral da Bahia. No lugar dos recepcionistas de hotéis parisienses, estarão os alemães. Os garçons brasileiros ocuparão os postos de seus colegas franceses. Cozinheiros italianos, indianos, espanhóis, portugueses, gregos e de outras nacionalidades substituirão os chefs franceses. Ônibus, metrôs, táxis e demais transportes serão operados por ingleses. Quanto às outras funções da cidade, vou me abster de indicar a respectiva nacionalidade, para não gerar polêmica ou recair nos meus preconceitos. Você escolherá quem desempenhará o papel de policiais, operários, professores, prostitutas, diplomatas, mendigos, artistas, garis, médicos, crianças, batedores de carteira e políticos.
Conclusão: Paris sem nenhum parisiense continuará a encantar muito. Seus monumentos, o rio Sena, suas pontes, as obras de arte dos seus museus extraordinários, suas praças e parques continuarão lá para serem visitados por quem puder ir. Mas, no fundo, no fundo, ao caminhar para o fim deste texto, me sinto dividido e com uma pontada de tristeza. O mau humor dos parisienses tem seu charme. Não devemos generalizar nem projetar as cidades sem as pessoas que ali vivem. De todo modo, é certo que voltariam do Nordeste muito mais felizes e relaxados para receber os milhões de turistas habituais. Mas nunca deixe de ter em mente, you must remember this: nem Rick nem Ilsa são franceses… e sempre terão Paris. Como nós!