
Os não tão jovens devem se lembrar das fichas coloridas de plástico que os cobradores de ônibus do Rio nos entregavam quando pagávamos a passagem. Antes de descermos no ponto, era preciso depositá-las numa espécie de urna à vista do motorista.
Imagino que se prestavam para conferir se o passageiro tinha pagado a passagem. Mas como passar por aquelas catracas enormes travadas pelos trocadores com o pé? Como escapar da cobrança daqueles homens e mulheres com unhas longas e afiadas? As unhas serviam para contar melhor as notas e puxar as moedas do fundo da gaveta. Mas eram afiadas o suficiente para cortar a carótida de quem tentasse dar um calote.
Portanto, não me arriscava e pagava o preço exigido. Mas era fácil levar as fichinhas para casa. Equivaliam aos troféus dos serial killers e posso falar disso com tranqüilidade pois meus crimes prescreveram. Não matei ninguém, por favor! Não havia dedos decepados no meu armário. Mas havia muitas fichinhas da Viação Alpha, da Viação Tijuca e outras.
Quando eu estava perto de casa e o ônibus parava no ponto do Colégio São José, também usado por quem morava no Morro do Borel, eu preparava o golpe. Muita gente descia ali e eu sabia que no ponto seguinte, o meu, eu ficaria mais exposto. Muitas vezes, só eu puxava a cordinha para dar o sinal. Trim!
E o ônibus avançava pela Rua Conde de Bonfim, ao longo dos muros da fábrica da Souza Cruz. O cheiro de tabaco inebriava. Será que o motorista ouviu? Trim, novamente. Ele reduzia a marcha e, antes de chegar à esquina da Rua Santa Carolina, quando meu coração já pulsava forte, começava a frear.
E eu? Colocaria a ficha na urna ou desceria correndo, tal qual o Mister Hyde escondido em mim o faria? Ou como o dark passenger do Dexter, da extraordinária série da TV de mesmo nome? O suspense era grande, pois havia sempre o risco de motorista e trocador me verem entrando no portão de casa e me perseguirem. Eu até poderia jogar a ficha no Rio Maracanã, mas, se ela caísse traiçoeiramente numa pedra, ao invés de sumir nas águas do rio da minha infância? Eu seria preso!
Que viagem a minha! De ônibus, da Rua Haddock Lobo até o Alto da Tijuca, fui longe. Mas acho que as minhas fichas ainda não caíram de vez. Custo a crer que essas boas aventuras se foram para sempre, que os ônibus não tenham mais fichas nem trocadores e, pelo andar da carruagem (!), não terão mais motoristas. Seremos transportados por máquinas monótonas e sem graça, que pararão em todos os pontos, que não darão arrancadas emocionantes e freadas bruscas, que só mesmo quem não precisa pegar ônibus experimenta nas montanhas russas da Disneylândia.