Tenho uma cunhada que está sempre atrasada, mas sempre tranquila. Se tem um compromisso no Centro do Rio às 17 horas, só se julga atrasada um minuto depois, a partir de 17:01, mesmo que esteja a 40 km de distância. Mas somente ela suporta as consequências dos seus atrasos. Não assiste ao primeiro ato da peça, perde o avião, perde o jantar ou deixa de comer a torta de maça da sobremesa.

Mas os atrasos na prestação dos serviços essenciais, nas decisões de governo e nos processos judiciais não podem ser tratados como tranquilos, engraçados ou pitorescos. Implicam prejuízo para quem deles depende. No caso da morosidade do Judiciário, dizem que os juízes vivem assoberbados. Pobres meretríssimos ou meritíssimos, sempre confundo.

Nesta semana, uma manchete chamou minha atenção e ilustra com perfeição o descompasso da Justiça, para dizer o mínimo: “Toffoli anula provas e diz que prisão de Lula foi erro crasso”. Se o resultado das eleições presidenciais tivesse sido outro, será que este douto ministro da Suprema Corte teria soltado essa pérola, ou melhor, esse colar de pérolas cravejado de um raciocínio tão brilhante?

Num passado muito triste e recente, o mesmo Toffoli nomeou um general como assessor seu no STF e cunhou a célebre expressão “Movimento de 64”, no lugar de “Golpe de 64”. A propósito, fala-se que pretende desenvolver uma tese sobre o Movimento de 1789, na França, e a necessidade do uso de guilhotinas eletrônicas. Portanto, sem quaisquer embargos, estamos diante de um camaleão de toga, de um magistrado “Zelig”. Lembram-se do filme de Woody Allen, de 1983? Também recordo o que se dizia por aí: “há dias ruins, há dias piores, mas nada é comparável a Dias Toffoli”.