Falávamos de despedidas quando uma amiga tirou do fundo do baú o cantor Sílvio Caldas. Não fazíamos parte do seu fã clube, éramos muito jovens, mas ouvíamos anunciarem suas sucessivas despedidas nos programas de auditório dos anos 1970. Sílvio Caldas tentava parar, mas não conseguia. Ou seus fãs não o deixavam partir.

Saber a hora de encerrar a carreira é um desafio para quem tem papel público. Depois de uma certa idade, os reflexos dos atletas diminuem e a imagem de atores e atrizes os impede de interpretar determinados papeis. Quem canta, sabe que a voz não se sustenta com o tempo. Gravações do Frank Sinatra dos anos 1950 são muito superiores às de 30 anos depois, quando Blue Eyes passou a recorrer a truques e arranjos dos quais antes prescindia. O Rei Pelé pendurou as chuteiras mais de uma vez. Depois, retomou a carreira no desconhecido Kosmos de Nova York, numa espécie de posfácio da sua biografia.

E a dificuldade de parar torna-se ainda mais difícil quando não há sucessores. A genialidade não é hereditária, salvo raríssimas exceções. Por outro lado, da mesma forma como artistas se apegam aos palcos, músicos aos seus instrumentos e jogadores de futebol aos gramados, nós, fãs, nos apegamos aos nossos ídolos, de modo que estrelas e plateias tornam-se adictas umas das outras.

“Madureira chorou. Madureira chorou de dor. Quando a voz do destino, obedecendo ao divino, a sua estrela chamou”: composição de Carvalhinho e Julio Monteiro. Na voz de Beth Carvalho, que também já se foi, é o máximo.