
A palavra escândalo deriva do grego “skándalon” e pode se referir a uma pedra na qual um indivíduo tropeça. Em geral, qualificam-se de escândalos acontecimentos, ao mesmo tempo, inusitados e muito ruins. Mas o que esperar da vida senão uma sucessão de pedras ao longo do caminho? Algumas para transpor, outras para nos fazer recuar. “No meio do caminho tinha uma pedra” nos ensinou o poeta.
Por outro lado, lembro-me que quando minha mãe via um bougainville todo florido costumava dizer “que escândalo!” Escandalosamente lindo! Portanto, além das pedras para desviar, há pedras a contemplar, como também há beleza em atitudes que escandalizam para revolucionar hábitos preconceituosos e condenáveis.
As mulheres protagonizaram escândalos altamente saudáveis nos costumes, do uso da calça comprida ao topless, e lembro-me do primeiro beijo na boca que vi ao vivo. Devia ter uns sete anos e estava no carro com meus pais, em Friburgo. Passávamos na frente de um prédio quando avistei um casal se beijando numa janela. Doze anos depois, em Paris, vi dois rapazes se beijando e a recepcionista do hotel com uma coleira cheia de tachas e os cabelos verdes. Que escândalos!
Mas os maus escândalos infelizmente são os mais comuns e, pior, os banalizamos. E são tantos, o tempo todo, que prescindem de exemplos. Melhor guardar na memória, portanto, os bons escândalos: a imagem dos boungainvilles, dos beijos, dos punks, da Leila Diniz de biquíni na praia, grávida, Gabeira de tanga e Jackie Onassis como veio ao mundo. E, quem sabe, tropeçar com pessoas legais por aí.
A foto é da escultura O Beijo, de Rodin, final do século XIX