Ouço o costumeiro barulho do jornal contra a porta e levanto-me para ler as manchetes. No passado, correria até o jornaleiro da esquina, que certamente estaria apinhado de curiosos em torno das primeiras páginas dos jornais. Eu queria saber dos detalhes da história de um general de quatro estrelas, pai de um tenente-coronel, envolvido nos descaminhos de um capitão da reserva. Imaginava a história na primeira página, assim como aquilo que a TV desgraçadamente noticiara na véspera: mais uma criança morta pela polícia do governador Claudio Castro: a menina Eloah, de cinco anos.

Mas não existem mais primeiras páginas como antigamente, sequer jornais. Para quem ainda não assistiu, recomendo o clássico do cinema The Front Page, A Primeira Página, de Billy Wilder. Trata do mundo dos jornais nos anos 1920, nos Estados Unidos. A propósito, também sugiro com entusiasmo dois livros que li recentemente sobre o papel da imprensa: O Livro dos Insultos, de H. L. Mencken, traduzido por Ruy Castro, que recebi de presente do Murilo Rocha, e Insultos Impressos, de Isabel Lustosa, que nos leva aos primórdios da imprensa de um Brasil que se tornava independente de Portugal.

No passado, as primeiras páginas não apenas nos conduziam às entranhas dos periódicos, como iscas. Muitas vezes, diziam tudo com letras garrafais e fotos. Hoje, isso não existe e creio que não se deve apenas aos fatos conhecidos na véspera, antecipados pela TV online e pelas redes digitais. Parece-me que faltam inteligência e criatividade nas edições. Os “passaralhos” – listas de demissões para os íntimos- fizeram muito estrago para quem ainda gostaria de ler um bom jornal.

E não foi preciso nem baixar para ver o que havia nessa primeira página que bateu à minha porta no último sábado. Era um anúncio colossal do Rio Gastronomia. Certamente, assunto mais palatável do que o de um oficial do Exército que ajudava o ex-presidente da República a dar ordens para lá de suspeitas. Fazer o quê? A assinatura do jornal de papel que leio ainda é mais barata do que as folhas absorventes vendidas nos petshops para Cuscuz fazer suas necessidades.