
Nada mais oportuno do que sair da nossa cidade grande e disfuncional para olhar os lírios do campo. O problema é chegar ao campo. Semana passada, bem que tentamos fazê-lo com alguma tranquilidade. Bem cedo, acessamos a Via Presidente João Goulart, a temida Linha Vermelha, sem qualquer percalço. Em seguida, a Rodovia Presidente Washington Luís.
Mas depois de pagar um inexplicável pedágio, considerando as péssimas condições da estrada, mal iniciamos a subida da serra de Petrópolis, lá estava um engarrafamento colossal, como quase sempre. Caminhões tentando ultrapassar carretas numa estrada que não mudou muito nos últimos 90 anos.
A Washington Luís foi inaugurada pelo presidente de mesmo nome, em 1928, que cunhou a célebre expressão “governar é construir estradas”. Mas governar também deveria ser duplicar, triplicar e, sobretudo, conservar estradas. Nada disso foi feito.
Em pânico, pois não há retorno, só me vinha à cabeça a fala do corvo de Edgar Alan Poe: “never more, never more, nunca, nunca, nunca mais”. Até que chegamos à Casa do Alemão, onde comemos o delicioso sanduíche de linguiça, precedido do delicioso croquete de carne. Foi quando comecei a fazer as pazes com a vida e comigo mesmo. A rigor, a subida podia ter sido muito pior. O carro podia ter fervido, um pneu furado ou meu cunhado dentro do carro a falar de economia.
Dali, foi um pulo até Araras, onde chegamos numa casa deliciosa, simples, de um extremo bom gosto, cheia de história, de uma amiga querida cuja hospitalidade não se experimenta num hotel de cinco estrelas. Uma poltrona, um abajur, uma estante cheia de livros, vinho, queijo, pão e, no intervalo de conversas sobre a vida inteira, silêncio.
Duas noites e a volta ao Rio. Parece que foram duas semanas de prazer. Todo cuidado é pouco para não nos deixarmos contaminar pelas mazelas de uma cidade grande tão mal cuidada, apesar da natureza deslumbrante. Em pouco mais de uma hora, chegamos sem saudade ao nosso Rio de Janeiro, à nossa cidade partida, linda, injusta, viva, perigosa, alegre, hostil, acolhedora, maltratada, querida.