Eu estava fazendo a detestável ginástica na detestável academia quando uma conversa chamou minha atenção. Uma moça, com idade indefinível e feições “harmonizadas” semelhantes a uma dúzia de outras, conversava com seu personal trainer, ou melhor, monologava com seu personal. “Cara! Não tenho tempo para nada! Acordei tipo sete horas, com o celular quase sem bateria, olhei minha agenda, tomei a fórmula e vim treinar”.

E prosseguiu: “pô, cara, essa música é mara, uma batida tipo funk, tipo balada, sei lá”. E, sem precisar recuperar o fôlego, ela mostrou fotos do seu fim de semana em Nova York. “Fui numa festa… Uau, loucura! Tipo nem dá para contar. Cara! Você não sabe o que está perdendo! New York estava mara”. Mara de novo!

Perguntei-me se o sujeito de fato não sabia o que estava perdendo. Creio que ele sabe perfeitamente o que perde todos os dias. Às vezes, perde o horário e é repreendido pelo gerente da academia.

Mas não perdeu a paciência com a cliente, pelo contrário, os dois riam muito e pareciam se divertir com a “troca” de experiências edificantes. Ele dizia que ela era F… e morri de inveja dessa felicidade aparente e do abdómen do treinador. Eu, a queimar neurônios; ele, a queimar gordura localizada com tanta facilidade.

De repente, um rapaz, com um biotipo de maçaranduba, se postou diante de mim e perguntou: “podemos revezar?” Levei um susto. A voz era mais aguda do que seus bíceps sugeriam, mas a ficha caiu. Ele queria que compartilhássemos o aparelho, uma espécie de garrote vil pós-moderno. Aquiesci, lógico, e o Maçaranduba decuplicou o peso do “nosso” aparelho, lá ficando um bom tempo.

Melhor assim. Relaxei e estiquei meus ouvidos na direção do colóquio. “Amigo, você não vai acreditar. Sabe com quem minha melhor amiga ficou no sábado?” E disse lá um nome desconhecido para mim, mas não para o personal, e continuou falando de si com louvores, dos procedimentos estéticos que faria e dos eventos do final de semana seguinte.

Sem dúvida, uma conversa riquíssima da qual extraí, pelo menos, a ideia desta modesta crônica. No final, o personal alongou a moça, beijaram-se e Maçaranduba finalmente se levantou do nosso aparelho. Caramba! Era muito suor! Sentar ali, nem pensar. Dei um sorriso amarelo e disse que já tinha encerrado a minha série. Não a da Netflix; a série de exercícios que eu deveria concluir com a habitual má vontade. Afinal, barriga tanquinho para quê? Que ela continue inspirando… prosperidade!