Reportagem da jornalista Janaína Figueiredo de 21/5/2023, em O Globo, tratou da interminável crise econômica argentina com dois novos ingredientes que ilustram o desespero dos nossos hermanos, mas também sua capacidade de adaptação.

Primeiro, as cuevas, que nada tem a ver com as adegas dos vinhos que tanto apreciamos e bebemos quando é possível. Na realidade, são instituições financeiras informais. Se a necessidade é de crédito, ao invés de cruzar a porta de um Citibank ou congênere, os argentinos podem se dirigir ao fundo de uma sapataria ou de um mercadinho de bairro onde funciona uma cueva. Isto, se, no meio do caminho, não se acertarem com um arbolito, a segunda figura dessa matéria: pessoas de pé nas calçadas, como árvores, fazendo câmbio. 

Fundo do poço? Antes fosse. É muito triste. Na última vez que estive em Buenos Aires, minha sensação foi de melancolia, equivalente ao sentimento de percorrer o Centro do Rio hoje, talvez, pior. Havia tristeza nas ruas, além de sinais muito nítidos de empobrecimento da população.

É por essas e outras que não compreendo a empolgação de grupos que organizam finais de semana na capital argentina. É certo que nossos vizinhos fariam o mesmo se a situação fosse a inversa, como já ocorreu. Mas acho cruel festejar o fato de que o bife de chorizo e um bom Malbec estejam ao preço da carne de terceira e de um vinho de garrafão no Brasil.  

Na verdade, compreendo, sim. Quantos de nós pagam mais por um produto porque quem o produz garante melhores salários aos seus trabalhadores? Hospedamo-nos em hotéis mais caros porque as camareiras tem bons planos de saúde? Os altos funcionários do Judiciário, do Legislativo, do Ministério Público e grandes empresários pagam mais aos seus empregados? As diaristas de suas casas, por exemplo. Ou seguem o “mercado”? Formal ou paralelo? E você? Se a farinha é pouca, você faz o seu pirão primeiro?