
Nos últimos sessenta anos, a paisagem urbana do Rio mudou tanto que, não fosse sua inigualável moldura natural, arriscaria dizer que não vivo na mesma cidade da juventude dos meus pais: aterros, abandono e demolição de prédios históricos, sombra na praia, Barra da Tijuca desfigurada, fim de linha para os bondes, Maracanã arrasado, subúrbio decadente e até no Pão de Açúcar querem mexer.
Desci do metrô na Estação Carioca e saí pela lateral do Edifício Avenida Central. Não há mais carros naquele trecho da Rio Branco e a agência central da Caixa Econômica foi transformada numa grande loja de bugigangas chinesas. Virei na Almirante Barroso, num trecho que meu pai nunca deixou de chamar de Tabuleiro da Baiana – um terminal de bondes coberto por uma laje que, além da forma de tabuleiro, abrigava baianas vendendo acarajés e cocadas.
Mais adiante, o prédio do BNDES – um picolé de açaí fincado no pouco que restou do Morro de Santo Antônio, felizmente, ainda com o convento. Do outro lado, a sede da Petrobrás – uma monumental escultura de cubos que pessoalmente não gosto.
No entanto, o que mais chamou minha atenção nessa paisagem do Centro do Rio foram os homens de preto na frente de uma loja de aparelhos celulares, na Avenida Treze de Maio. Não eram executivos escolhendo um modelo de telefone. Eram seguranças da loja, que ali permaneceriam ao longo do dia sob o calor do veranico de maio, com calça, camisa social, paletó e gravata. Como estes, eu já havia notado muitos outros, nas portas dos hotéis da orla e ao longo das principais ruas e avenidas da Cidade.
Meu pai e seus colegas, aos 20 anos, andavam por esse mesmo Centro e frequentavam as aulas da Escola Nacional de Engenharia, no Largo de São Francisco, vestidos com ternos semelhantes aos desses seguranças. A rigor, vestiam-se como se vivessem na Europa. Deviam morrer de calor! Mas, com toda certeza, não mais que os homens de preto do século XXI da “mesma” Cidade do Rio de Janeiro, cujo crescimento destrambelhado impõe uma sensação de calor muito maior.
Eu também sou obrigado a trabalhar de paletó e gravata, felizmente, em ambiente refrigerado. Fala-se de liturgia das funções, como se a indumentária garantisse decoro e respeitabilidade. A propósito, lembro-me do finado restaurante do Salão Assírio, no Theatro Municipal. Só eram admitidos clientes de paletó, mas, para os afortunados desavisados, havia sempre uma peça na entrada – espécie de salvo conduto para o desfile até a mesa – o que invariavelmente dava um toque de deselegância todo especial. Afinal, moramos ou não num país tropical abençoado por Deus?