
O ser humano contemporâneo, em especial, da classe média para cima, é um mala. Mas tem que ser Sansonite. Digo isso por constatar que a evolução dos nossos gostos e prazeres ignora os melhores atalhos para a felicidade. Enquanto comer é uma festa na maioria do planeta, nós, privilegiados, fazemos caras e bocas para nos satisfazermos.
No passado, a chegada em casa de uma caixa de bombons da Garoto era um acontecimento. Quem estivesse por perto, se apressava em pegar o Serenata de Amor. Quando vinham dois na caixa, era sinal de extrema felicidade e um desafio para a consciência: pegar os dois ou só um?
Hoje, felizmente, muito mais gente tem acesso às caixas de bombons. A universalização de desejos alcançáveis é um grande avanço. Mas o bombom Garoto perdeu o seu atrativo, assim como tantas coisas do passado. Eu entrava numa loja de balas e babava. As bonbonnières dos cinemas, então, eram mágicas, mas não dava para ir muito além de um Mentex ou do Drops Dulcora – uma verdadeira escolha de Sofia.
Hoje, podemos comprar muitas jujubas, Delicado, chiclete Adams, Frumelo, amendoim, pipoca, refrigerantes, sorvetes da Kibon, quase tudo, como os ricos de outros tempos. Mas, até em uma padaria, entramos sem sonhos… Nossos objetos do desejo mudam o tempo todo e não dão trégua. Nem a Covid deu conta de diminuir o nível de exigência do nosso olfato e paladar – se é que se trata de uma questão de sentidos.
Outro dia uma amiga disse não saber viver sem ilusões. É difícil mesmo. Quem dera sentir novamente o ar geladinho do Metro Tijuca e comprar apenas um saquinho de bala Toffee! O paraíso também era quando a praia estava calminha, alguém tinha levado uma bóia de caminhão e tínhamos dinheiro para um cachorro quente de lingüiça. Mas Mr. and Mrs. Sansonite querem sempre muito mais. No fundo, têm muitas nozes, mas não sabem usar os dentes.