“Eu queria que você me desse a metade da atenção que dá para o cachorro!” Esta foi a primeira fala que ouvi de uma moça sentada no fundo do ônibus do Metrô. Estava discutindo a relação com a pessoa do outro lado da linha. E prosseguiu alto e em bom som.

Disse que ele maltratava sua mãe, que não valorizava o seu trabalho e que tinha ficado muito puta quando ele quis sair da festa da Malu antes de meia noite. Sim, ela disse puta, na altura do Humaitá, com duas dezenas de pessoas ouvindo tudo. Mas isso já não espanta…

E continuou a metralhar o seu discurso, que pensei com meus botões: é lógico que o cachorro merece mais atenção! Cães não telefonam para discutir a qualidade da ração. Além do quê, não são rancorosos, interesseiros e definitivamente não usam termos chulos em público. Quando muito, rosnam.

Fato é que podemos nos comparar a outras pessoas. Certamente, encontraremos gente melhor e pior do que nós. Mas jamais devemos fazer a asneira de nos compararmos com um cachorro. Perderemos sempre!

Infelizmente, o Metrô não oferece aos seus usuários cones do silêncio, como os do Agente 86, e fui obrigado a ouvir os detalhes da relação da amiga da Malu com o marido. Meu livro permaneceu aberto na mesma página, de Botafogo até a Praça Santos Dumont, quando finalmente a gralha desembarcou, falando e gesticulando. “Coitada”, dirão alguns, é filha de Deus. Mas e seus irmãos?!