
Não compreendo por que uns cobram e outros se gabam dos cem primeiros dias de um governo. O que são cem dias? Sobretudo, no Brasil? É certo que o que era ruim ficou muito pior no quadriênio 2019/2022 e, a partir do início de 2023, o país conseguiu resgatar uma certa normalidade. Isso é muito bom. Mas eu não faria alarde. É preferível baixar o nível de ansiedade.
Cem dias me lembram o fim de um governo emblemático, o de Napoleão Bonaparte. Quem vai à França, vê e sente Napoleão por toda parte, triunfante. Lá está o auto coroado imperador no topo de uma réplica da Coluna de Trajano, na Place Vendôme, em Paris. Sobre o Arco do Carrousel, entre os jardins das Tulherias e o Louvre, outro marco do seu poder e da sua megalomania: os quatro cavalos de bronze que seu exército pilhou da Basílica de São Marcos de Veneza. Hoje, são réplicas. Mas o Sr. Bonaparte fez o que fez, bem ou mal, em muito mais do que cem dias.
Quem vem ao Brasil também percebe a marca de muitos governantes: esgoto a céu aberto, déficit de moradias, analfabetismo funcional, violência urbana… Não se conserta isso em cem dias! A correção de rumos é positiva. Recuperar a bússola e não correr o risco de despencar na borda do planeta é um alento. Mas daí a comemorar ou cobrar mais do que foi feito não é razoável.
Por outro lado, uma medida com efeitos imediatos poderia ter sido adotada nos últimos três meses: reduzir os juros. Aliviaria o bolso de muita gente e faria bem a quem produz. Mas isso depende de Bob Fields III, um dos participantes da célebre reunião do governo passado em que seus membros atacaram os “bandidos do outro lado da Praça dos Três Poderes”, falaram em abrir porteiras e o então ministro da Economia defendeu vender logo a “porra toda”, referindo-se ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica. O presidente do Banco Central, Campos, esteve presente nesse festim tenebroso, mas não se sentiu autorizado a levantar e ir embora.
Portanto, não nos iludamos! A batalha para remediarmos as nossas muitas feridas é tão crucial quanto a que aconteceu nos campos da Bélgica, nas proximidades de Waterloo e que selou o fim de um governo de cem dias. Mas a regra número um é não subestimar o adversário e não confiar exageradamente em nós mesmos! A propósito, experimente marcar uma endoscopia numa UPA. Opa! Se tiver sorte, conseguirá uma brecha em 645 dias. Se tiver um plano de saúde, pode levar a metade do tempo. Percebeu que o buraco é mais embaixo?