
O Conde de Monte Cristo, de Alexander Dumas, foi o romance que seguramente mais me impressionou na juventude. É inesquecível a trama que trancou Edmond Dantès no Chateau D’If e a sua fuga espetacular. Em seguida, Os Miseráveis, de Victor Hugo, assumiu o primeiro lugar da minha lista, com Jean Valjean e o implacável inspetor Javert. Dois clássicos que influenciaram muitas gerações e inspiraram inúmeras variações sobre um de seus principais temas: a injustiça.
Eu não saberia escrever sobre justiça, moral e ética com a profundidade que o caso requer, mas, cronicamente falando, o que observo desde a saída de Gatuno da prisão merece registro. Ele confessou muitos dos seus crimes. Não fugiu da Justiça por ter furtado um pão e, depois de preso, delatou comparsas em troca da redução da sua pena. Dizia-se muito: “quando Gatuno falar, o Judiciário tremerá”. Não tremeu e sua volta ganhou contornos triunfais.
Gatuno viveu uma temporada no presídio, mas teve boas condições de permanência – ao contrário da esmagadora maioria da população carcerária. Não sei quanto tempo seria útil que lá permanecesse para a justa reparação dos delitos confessados. Acho que bastaria ter tido seus bens confiscados e que passasse a viver num padrão de vida equivalente ao que leva a maioria dos mortais que governou. Seja como for, algumas perguntas ainda merecem resposta: Gatuno arrependeu-se? Reparou o que fez? O crime compensa?
Tal como entrou e saiu da prisão, não inspiraria Dumas ou Hugo. Ele não fugiu de Bangu 8 num rabecão, dentro de um saco, como se estivesse morto, pulando do veículo em movimento na altura de Guadalupe. O promotor de Justiça que obteve sua condenação não se matou, lançando-se nas águas fétidas do Rio Acari. Nada disso! Gatuno saiu pela porta da frente, conduzido num carro confortável até um apartamento de frente para o mar.
Ele também não planejou qualquer tipo de vingança. Anunciou que vai trabalhar com marketing político, empregou o filho na Assembleia Legislativa e já desponta como influencer de sucesso. Não importa se será um mau influencer, contanto que atraia público para as redes sociais. E de público Gatuno entende bastante. Descobriu o Brasil há muito tempo, sabe como as coisas funcionam e costuma dizer que “tudo vale a pena, se a pena é pequena”.