Considerando que um dia tem 24 horas;

Considerando que tenho o privilégio de dormir oito horas por dia em média;

Considerando que oito equivale a um terço de 24;

Considerando que tenho 60 anos;

Considerando que um terço de 60 é 20;

Concluo que passei 20 anos dormindo.

Quantos bons sonhos, quantos pesadelos, quanta perda de tempo para alguns, quanto ronco se eu roncasse… Mas o tango cantado por Gardel diz que “es un soplo (sopro) la vida”, “veinte años no es nada”. Portanto, posso voltar a dormir sem culpa. Que são 20 anos? Nada!

Há controvérsias. Minha filha, no auge dos seus 21 anos, não concorda. Aliás, asseguro, dormiu mais do que sete anos! “Acorda, Cecília! Vai se atrasar!” Como me arrependo dessa minha fala…

Mas a coisa só se torna saudável se os anos de sono forem entremeados por períodos efetivamente despertos. Dormir 20 anos, direto, seria esquisito. No meu caso, se isso tivesse acontecido, antes de acordar hoje, em 2023, eu teria ido para a cama em 2003, depois de colocar Cecília para dormir.

E o que aconteceu nesse ano de 2003? Fui ao Google e eis a resposta: 1º de janeiro – Luiz Inácio Lula da Silva assume a presidência da República Federativa do Brasil. 24 de março – 400 anos de morte da rainha Elizabeth I da Inglaterra (a primeira!). 3 de setembro – Gilberto Gil recebe o Grammy Latino prêmio de Personalidade do Ano. O Google completou três aninhos no Brasil, não existia Whatsapp, Instagram, Chat GBT e outras geringonças.

De lá para cá, portanto, tivesse eu dormido, é certo que teria sido poupado de muita coisa ruim. Por exemplo, não teria assistido à eleição Daquele Cujo Nome Não Se Escreve e não teria vivido a tragédia da Covid. Por outro lado, não teria tido muitas alegrias, como os dez títulos de campeão carioca do Flamengo, três copas do Brasil, três do Brasileirão, o tricampeonato da Libertadores – só para ficar nas conquistas do Flamengo e provocar a torcida adversária. Mas este balanço não cabe numa crônica.

Já não sei mais… “Tengo miedo de las noches que pobladas de recuerdos encadenan mi soñar” (Tenho medo das noites que, povoadas de memórias, envolvem meus sonhos), também canta Carlos Gardel… Dormir ou não dormir, é a questão. Alguém sugere uma série no Netflix que não dê sono?