É relativo pensar que o sol nasce para todos. Li que resultados iniciais do Censo do IBGE apontam que a comunidade Sol Nascente, no Distrito Federal, ultrapassou a Rocinha como a maior favela do Brasil e é emblemático que esteja no topo desse pódio. Se Brasília, o centro do poder político, é ou foi uma cidade planejada, hoje, sabe-se que o planejamento fracassou.

Eu era criança quando, em 1973, fui com meus pais a Brasília. Lembro-me da longa viagem de carro e da porta giratória do hotel onde nos hospedamos, que só tinha visto nas histórias em quadrinhos. Lá fiquei rodando, rodando, até que um funcionário acabou com a festa. Daquela época, também me lembro do anjo flutuando na Catedral e dos palácios enormes na perspectiva de uma criança.

40 anos depois voltei para o casamento de um sobrinho e confirmei que Brasília é das cidades mais fotogênicas que conheço. Fotogênica! Mas a nova visão que tive in loco não me agradou. Além da questão da escala – achei tudo bem menor, não contava rever a Catedral com carrocinhas de cachorro quente e cadeiras de plástico na frente.

Brasília me pareceu ser uma cidade maltratada e, agora, depois da notícia sobre a comunidade Sol Nascente, me dou mais conta de que nem partindo do zero, com um gênio da arquitetura e um urbanista visionário, a capital do Brasil conseguiu fugir à regra de que a política pública habitacional é um desastre completo. Um mundo dá muitas voltas, mas, no Brasil, pobre continua tendo que morar longe e/ou mal. A festa continua sendo para poucos, muito poucos.