
Acredito em Deus. À minha volta muitos não acreditam. Respeito. Mas, mesmo sem maiores detalhes, acredito, sim. Sinto. Ter uma religião é outra coisa. Sou religiosamente ambíguo e para início de conversa parece-me uma presunção enorme afirmar que somos criaturas feitas à semelhança do Criador. Como um humilde observador, custo a crer!
A espécie humana é um fracasso. Ela nada ou muito pouco tem de Deus. Destrói muito mais do que cria e é limitadíssima. E não me venham falar de tecnologia. Nenhuma deu conta da fome de mais de dois bilhões de semelhantes. Quanto às manifestações artísticas de alguns de nós, são exceções que só confirmam a regra. O concerto para clarinete de Mozart é excepcional, assim como muita coisa é divina na música popular, na pintura e em outros domínios da arte. Exceções! Ligue o rádio e ouça o que toca. Uma em cada cem músicas não fere os ouvidos. Uma em cada mil vale a pena ouvir.
Como definir Deus, então? Aprendi que os espíritas iniciam os seus estudos e constroem sua filosofia com uma questão central instigante: que é Deus? Quê? De plano, afastam que tenha a forma de um homem, com barba, um verdadeiro Papai Noel vestido de branco. E qual seria a resposta?
Vejam, não sou teólogo. Isto aqui é apenas uma crônica a sustentar que a espécie humana não está nada bem na foto e que há um caminhão de dúvidas. Mas o jornalista norte-americano H. L. Mencken, iconoclasta que era, não hesitou. Dizia que o homem era tosco e ridículo, que as abelhas e formigas seriam infinitamente mais engenhosas e que um orangotango, então, muitíssimo superior. Casa-se aos sete anos de idade, constrói uma família de setenta filhos e continua tão vigoroso e sadio aos oitenta como um europeu de 45. Ou seja, esqueçamos que o homem espelhe um pouco de Deus.
Se pudesse arriscar, eu diria que, à sua semelhança, Deus criou a paineira, o ipê amarelo, o coqueiro, o mar, a brisa, o golfinho, o cheiro de grama cortada, o pudim de laranja, o nascer e o pôr do sol, os passarinhos, as temperaturas amenas e, óbvio, o golden retriever e todos os vira-latas que estão sempre ao nosso lado. Ok! Gatos também, cavalos também, tartarugas, bichos preguiça, sapos, gambás, focas, baleias, macacos e lontras… Cobra, não!
Michelangelo é que estava certo: foi por um triz.
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