
Quem nunca sonhou com heranças inesperadas? Pessoalmente, acho que deveriam ser muito bem taxadas e de forma progressiva. Nenhuma pessoa deveria legar para quem quer que fosse a possibilidade de uma vida sem um mínimo de esforço. Em outras palavras, quem não trabalha não mama! Mas no meu caso é diferente, lógico.
Num dia chuvoso, com a temperatura em torno de 20 civilizados graus centígrados, ouço um trovão. Soa a campainha da porta e lá está um senhor distinto com um envelope nas mãos. Num português precário, quer saber se sou quem sou. Convido-o para se sentar e ele revela, num inglês, felizmente, com legendas, que uma velha tia que não conheci legara-me um castelo na Escócia e outros bens estimados em 20 milhões de libras esterlinas. Outro trovão!
Tia escocesa? Sei do meu bisavô libanês, filho de grega e casado com uma espanhola, dos bisavós portugueses e dos sobrenomes que revelam meus antepassados fugidos da Inquisição… Portanto, diante da minha salada genealógica, uma escocesa não seria um absurdo. Vislumbro o castelo, garrafas de uísque por toda parte, gaitas de fole e, como nada é perfeito, os kilts – típicos das Terras Altas para onde me mudarei de mala e cuia. E, lógico, por alguns milhões de libras, eu até admito usar o saiote com cuecas de lã.
Mas e os meus quatro irmãos? É tudo para mim ou terei apenas um quinto da grana da velha? Pô! Não vai sobrar nada! Um quinto de um castelo e só quatro milhões de libras? Raios! Por que não sou filho único? E qual será a alíquota do imposto sobre herança da Escócia? Só falta o Carlos III, filho da falecida Lilibeth, abocanhar uma parte. Consulto Tico e ele é peremptório: “Sua tia ralou muuuito e quis deixar tudo para você”. Mas antes que eu pudesse sopesar o que meu neurônio mau caráter dizia, Teco redarguiu sem meias palavras. “Mauro! Você não é o Kid Morengueira e eu não me chamo Etelvina! Acorda e vai trabalhar, seu mala!”