
Alguns dirão que sou casmurro, mas o calor no Rio não é civilizado. Sonho com um mundo solidário, com o fim de todo tipo de fronteiras e, por que não, com temperaturas amenas. Abaixo todos os oitos e oitentas! Nem zero nem 40: 20 graus centígrados para todos!
Imaginem um mundo assim. Celsius com 20, Fahrenheit com 68! Abaixo ou acima, apenas em regiões não habitadas pelo bicho homem. Os aparelhos de ar condicionado não existirão. Os níveis dos reservatórios de água subirão. Não será necessário produzir energia elétrica extra para suprir o consumo de privilegiados que dispõem do aparelho e podem pagar a conta de luz. Nem pedir ao taxista que ligue o ar, a despeito da cara feia.
Não digo que a temperatura deva ser de 20°C cravados. A margem de erro seria de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Com 17 graus daria mais vontade de abrir um vinho – desde que não produzido com mão de obra escrava (inacreditável!). E, nos dias de verão, com os termômetros alcançando a máxima de 23 graus, uma caldereta de um bom chope faria sensação.
Mas eis que surge uma memória de 1984 para bagunçar o coreto. Eu trabalhava no Centro do Rio, me mudara da Tijuca para São Conrado e começaria o sexto ano da Aliança Francesa. Portanto, o mais prático seria estudar na Maison de France. Como de uma forma geral, a professora era muito tarimbada. Eram tempos em que a Aliança Francesa era um instituto de cultura, e não uma empresa medíocre com clientes no lugar de alunos.
E lá fui eu à primeira aula para descobrir que Mme. H não dava aula com o ar condicionado ligado! Céus!!! O que fazer? O calor embaralharia toda a gramática que eu aprendera a duras penas. Verbo être ou avoir? Qual deles me auxiliaria para fugir do calor?! Pois contrariei a geografia da Cidade e voltei para a Aliança da Tijuca, onde, com as salas devidamente climatizadas, permaneci, até concluir o oitavo ano do curso. Melhor! Fiz amigos de uma vida inteira e conheci “ma madame”, minha mulher. Bendito seja o aparelho de ar condicionado desligado e, lógico, bendita Mme. H. Tenho muita saudade da Aliança daquela época. E nem falo dos bolos da cantina da Dona Olga e da Glorinha…