“É mentira!” “É verdade!” “Eu juro!” “Não, não, é mentira! A perna é curta e não vai longe”. Pois saibam que Alfredo tinha as pernas curtas, ligeiramente tortas e foi muito longe – um querido amigo que tornava as verdades muito mais interessantes. Nua e crua? Jamais! Ele colocava molho em fatos insossos e tornava-os deliciosos.

Tal era o seu hábito ou sua arte de mentir, que, se a conversa com amigos fosse longa e alguém contasse um fato pitoresco experimentado, passado um tempo, Alfredo se esquecia do que ouvira e contava a mesma história, trocando o nome do protagonista pelo seu. Na (sua) realidade, ele é quem tinha vivido aquela experiência engraçada e, como de hábito, chamava sua mulher para confirmar o que dizia. “Aqui está a Maria que não me deixa mentir”. Maria, baixinho, soltava: “sozinho”.

A verdade é que as mentiras perderam o charme de outrora. Não existe mais um Carlos Gardel que interprete o homem arrasado pela mentira da mulher má que disse que o amava. Não se tem mais notícia de um bom conto do vigário. As fake news são mentiras americanizadas, elaboradas com uso da tecnologia. Não são mentiras de verdade. E, com toda certeza, são cada vez mais raras as pessoas como o Alfredo, que mentia sem maldade e era um amigo de verdade.

Em sua homenagem, vou revelar uma coisa, antes de sair para o circuito dos blocos de Carnaval, que não perco por nada neste mundo. Semana passada, fiquei arrasado quando vi os números sorteados na megasena acumulada. Eram exatamente os mesmos com os quais eu tinha sonhado. Estava a caminho da lotérica quando uma cólica infernal me desviou. Renderiam milhões e eu teria dividido tudo com os meus amigos do Facebook. Mas, lógico, apenas com os que curtem e comentam os meus textos. Juro pelo meu cunhado!