
Essa coisa de inteligência artificial não sai da minha cabeça analógica. Hoje, na sua coluna, Cora Rónai escreve sobre um lado positivo do chatGPT que faz todo sentido. A Inteligência Artificial reescreve de forma inteligível e sucinta as sentenças judiciais e o empolado juridiquês de muitos advogados. Além, lógico, de evitar o assassinato culposo do idioma. Ponto para o robô! Mas aposto que os advogados vão recorrer. Agora, sério, sem procrastinar, o que sobrará de natural e inusitado no Planeta?
Até a imperfeição para humanizar as máquinas já é aplicada. E não falo da obsolescência programada – aquilo que a indústria faz para que as máquinas durem apenas o tempo necessário para o consumidor comprar um novo modelo. Verbi gratia, escreveriam os causídicos: o Iphone 1 poderia estar funcionando até hoje, mas tem que “morrer” para dar espaço às novas gerações. Até que, nada mais natural, o mundo não comporta a convivência de tataravós com tataranetos.
Mas penso nos verbos… Já se sabe que as máquinas pensam, logo, existem. Quais seriam, então, os verbos privativos dos seres humanos? Ser, uma máquina pode ser. Estar, andar, falar, cantar, escrever, pintar, filmar, fotografar, cozinhar, varrer, aspirar, lavar e, até colocar o carro na vaga, a máquina também pode. Sobra o quê?!
Até onde minha inteligência natural e orgânica á capaz de ir, uma máquina não come. Meu cunhado, por exemplo, perde em quase tudo para as máquinas, mas nenhuma come como ele. Uma máquina também não engorda nem promete começar uma dieta na segunda-feira. Pode lavar e secar, mas jamais estende a roupa no varal e, até onde sei, não passa a roupa a ferro – eu já teria comprado uma se existisse.
Por fim, não fugirei do fato incontornável de que as máquinas não transam. Sim, não fazem sexo, pelo menos, com outras máquinas. Mas, no Japão, acredite!, há bonecas e bonecos infláveis que vão muito além da nossa imaginação. Pelo que li, v.g. (verbi gratia, lembra? Associe a camarão VG) antes de essas bonecas, bonecos e boneques desligarem automaticamente, emitem um som peculiar. As que são vendidas no mercado anglofônico reproduzem o som “yes, yes, yes, yes, yessss!” Na version française: “Oui! Oui! Oui! Ouiiii! E mais! Tem a versão em português de Portugal, que é mais ou menos assim: “ai que, ai que, ai que, aaaai que maravilha!” Indecorosas e imbatíveis.