Quem ainda não leu a história de Adão, contada pelo escritor britânico Ian McEwan no livro “Máquinas Como Eu”, deveria se apressar. Quem não leu George Orwell está mais atrasado ainda. Digo isso por conta dos novos brinquedos com inteligência artificial, que batem papo, escrevem, compõem e até pintam. Esses dois escritores foram proféticos.

Para mim, a substituição e banalização da criação humana remontam ao tempo em que fazia bolos, que, modéstia à parte, eram gostosos. Certo dia, uma vizinha nos trouxe de presente um bolo de laranja delicioso. Quando eu quis conversar sobre a receita, a pilantra disse que era uma massa pronta, vendida em qualquer supermercado. Bastava acrescentar suco de laranja, que ela usava suco de caixa. Nunca mais me aventurei no mundo da confeitaria.

Este é um exemplo singelo das receitas de comportamento e dos produtos que chegam até nós e embaralham nossas vidas. Os robôs estão em alta e o homem se torna crescentemente descartável ou, na melhor hipótese, descartável e reciclável.

Aplicativos na palma da mão não faltam. Tem o Google Tradutor, cada vez mais juramentado! Tem o Waze, que escolhe caminhos como ninguém, o Tinder, para descolar um namoro, a querida Alexa, para quase tudo, tocar música, apagar a luz, dar a previsão do tempo e, mais recentemente, o chatGBT ou coisa que o valha que pode funcionar como uma máquina de escrever que prescinde de escritores.

O que será feito dos meus amigos jornalistas, tradutores e escribas em geral?! E os compositores, pintores, escultores? A máquina já aprendeu os traços de Van Gogh, já captou as luzes e a impressão do sol nascendo numa manhã de inverno de Monet. A fórmula do cubismo é facílima, piece of cake, e, com uma impressora 3D e meia dúzia de dados biográficos, esculturas inéditas, à moda de Rodin, podem tomar forma.

O que restará para os de carne, osso e cérebro das antigas? Poderemos, ao menos, escrever o nosso epitáfio? Parece que Deus realmente criou o homem à sua semelhança e o danadinho aprendeu mais rápido do que o desejável… Alexa, faz um cafuné!